Começa hoje

Hoje começa oficialmente a época mais famosa da Academia.

A mais temida. A mais desejada. A mais intensa. A que chega todos os anos com cheiro a folhas sublinhadas, calculadoras em cima da mesa, cadernos gastos, dúvidas acumuladas, olheiras discretas e corações um bocadinho apertados.

Começa a época dos exames.

Matemática de 12.º ano.

Duas palavras que parecem pequenas, mas que trazem dentro delas meses de trabalho, anos de caminho, medos antigos, expectativas da família, sonhos ainda meio tremidos e uma pergunta silenciosa que quase todos trazem nos olhos:

“E se eu não conseguir?”

E é aqui que entramos nós.

Entramos com contas, funções, derivadas, probabilidades, geometria, equações, gráficos, raciocínios e estratégias. Mas entramos também com outra coisa, talvez mais difícil de explicar: entramos com calma. Com presença. Com paciência. E com a certeza de que ninguém aprende bem quando está assustado demais para pensar.

São horas e horas de trabalho. Horas dedicadas a explicar, a repetir, a aprofundar, a corrigir, a voltar atrás, a tentar de outra forma, a encontrar o ponto exato onde a dúvida nasceu. Horas de apertos, de silêncios concentrados, de “não percebo nada disto”, de “vamos lá outra vez”, de “agora já começa a fazer sentido”.

Mas também são horas de abraços apertados, de gargalhadas no meio do cansaço, de piadas que salvam fins de tarde, de lágrimas que aparecem sem pedir licença, porque o medo às vezes também precisa de sair pelos olhos. São dias em que a Matemática se mistura com a vida, porque por trás de cada exercício há uma pessoa. E por trás de cada pessoa há uma história que não cabe numa pauta.

Há muitos “confio em si, stora”.

E talvez essa seja uma das frases mais bonitas e mais assustadoras que se pode ouvir.

Porque a confiança é uma coisa leve quando nos é entregue, mas pesada quando a seguramos. Eles confiam em mim. Confiam no que digo, no que ensino, no que prometo sem prometer: que vou estar ali, que vou fazer o melhor que sei, que vou caminhar com eles até à porta do exame. E eu agradeço essa confiança com o coração cheio. Mas também sinto o peso dela. Porque não são apenas notas. Não são apenas exames. Não são apenas resultados.

São vidas.

São miúdos e miúdas no princípio de qualquer coisa grande. São futuros ainda em construção. São sonhos que podem mudar de direção por causa de um exame, de uma escolha, de uma nota, de uma palavra dita no momento certo. E isso assusta. Claro que assusta. Mas também dá força. Uma força que vem de dentro, daquele lugar onde a responsabilidade se transforma em cuidado.

Esta época tem uma mística própria.

Não é apenas o fim de um ano letivo. É o princípio do fim de uma etapa. É a última grande subida antes de muitos deles seguirem outro caminho. Durante duas semanas, a Academia torna-se quase uma casa de campanha: todos a remar para o mesmo lado, todos cansados, todos atentos, todos a tentar vencer mais um medo, mais uma dificuldade, mais uma página.

Estuda-se muito. Aprende-se muito. Cresce-se muito.

E não falo só de Matemática.

Falo de aprender a não desistir à primeira. Falo de descobrir que a ansiedade não manda em nós. Falo de perceber que pedir ajuda não é fraqueza. Falo de ganhar método, disciplina, humildade, coragem. Falo de aprender que errar um exercício não é falhar na vida. É apenas receber uma indicação: por aqui ainda não está, tenta de novo.

Há qualquer coisa de profundamente bonita nesta época. Talvez porque todos sabemos que os dias estão contados. Enquanto estudamos, enquanto resolvemos exames, enquanto fazemos revisões e simulados, há uma despedida silenciosa a acontecer por baixo de tudo. Sabemos que, daqui a pouco, eles deixam de vir à Academia como estudantes. Voltarão, sim. Mas voltarão de outra maneira.

Voltarão de visita.
Voltarão como amigos.
Voltarão para contar novidades, escolhas, universidades, trabalhos, amores, conquistas e desilusões.
Voltarão já maiores, já mais longe, já com outra voz.

E alguns, quem sabe, voltarão um dia como colegas.

Engenheiros. Professores. Matemáticos. Investigadores. Médicos. Arquitetos. Enfermeiros. Psicólogos. Gestores. Pessoas inteiras a fazerem o seu caminho no mundo. E eu vou olhar para eles e lembrar-me de quando estavam sentados à minha frente, assustados com uma derivada, uma função, uma probabilidade, um exame que parecia maior do que eles.

Mas não era.

Quase nunca é.

Às vezes, o que nos parece maior do que nós é apenas aquilo que ainda não aprendemos a enfrentar.

Eu vejo-os primeiro como parceiros de caminho. Depois como pessoas que crescem diante dos meus olhos. A Matemática é só a língua que usamos para nos encontrarmos. No fundo, o que se aprende aqui é muito mais do que resolver problemas. Aprende-se a ficar. A insistir. A confiar. A pensar. A cair e levantar. A perceber que há caminhos difíceis que também nos levam a lugares bonitos.

Por isso, esta época de exames é uma metáfora da vida.

Há medo. Há pressão. Há dias bons e dias maus. Há exercícios que saem à primeira e outros que parecem impossíveis. Há vontade de desistir. Há pessoas ao nosso lado. Há trabalho invisível que ninguém aplaude. Há cansaço. Há pequenas vitórias. Há lágrimas. Há gargalhadas. Há união. Há partilha. Há conquistas que não cabem na nota final.

E depois há o exame.

Aquele momento em que eles entram sozinhos, mas levando dentro tudo o que construímos juntos. Entram com a caneta, a calculadora, o cartão de cidadão e uma parte de nós que vai escondida no bolso: uma frase, uma explicação, uma chamada de atenção, um “respira”, um “começa pelo que sabes”, um “confia no teu trabalho”.

No fundo, ensinar talvez seja isto: preparar alguém para entrar sozinho numa sala, sabendo que não vai verdadeiramente sozinho.

Hoje começa esta época intensa.

Vamos estudar muito. Vamos rever muito. Vamos respirar fundo muitas vezes. Vamos beber água, fazer pausas, corrigir erros, rir no meio do caos e lembrar que o medo não é inimigo; é apenas sinal de que aquilo importa.

Aos meus estudantes, deixo isto:

eu sei que têm medo.
Eu também tenho.

O vosso medo chama-se exame.
O meu chama-se responsabilidade.

Mas vamos juntos até onde for possível ir juntos. Depois, no dia certo, vocês seguem. Entram. Sentam-se. Abrem a prova. Respiraram fundo. E começam.

E eu fico deste lado, a torcer como quem reza, a confiar como quem conhece o caminho feito, a esperar que se lembrem de uma coisa simples:

vocês são muito mais do que uma nota.

Mas merecem que essa nota reconheça todo o vosso trabalho.

Que esta época seja bonita, apesar do cansaço. Que seja exigente, mas justa. Que traga resultados, sim, mas também maturidade. Que vos ensine Matemática, mas também coragem. Que vos leve para longe, mas vos deixe sempre com vontade de voltar.

Porque a Academia é assim: primeiro ensina, depois despede-se, depois espera.

E quando voltam, já maiores, já adultos, já mundo, percebemos que afinal nunca foram embora completamente.

Ficaram naquele lugar estranho e bonito onde ficam todos os que aprendem connosco:

um bocadinho na memória,
um bocadinho no coração,
um bocadinho na pessoa que também nós nos tornámos por os termos acompanhado.

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