Às vezes sou casa vazia
Às vezes sou casa vazia.
Não daquelas casas abandonadas, com janelas partidas e ervas a crescerem onde antes havia caminho. Sou antes uma casa habitada por dentro, cheia de ruídos, de tarefas, de vozes, de gente que amo, de dias inteiros, de trabalho, de pressa, de abraços, de filhos, de estudantes, de amigas que são irmãs, de um grande amor que me segura o mundo quando o mundo parece inclinar-se. Sou uma casa com luz acesa, com mesa posta, com vida a acontecer.
E, ainda assim, às vezes, sou casa vazia.
Há ausências que não ocupam apenas um lugar. Ocupam uma divisão inteira da alma. Ocupam corredores, gavetas, fotografias, cheiros antigos, domingos, natais, aniversários, decisões importantes, dias banais. Ocupam até aquilo que nunca chegou a acontecer. Porque perder um pai é também perder o que ainda vinha: as conversas que não tivemos, os conselhos que ficaram por dar, os abraços que não chegaram a tempo, a mão no ombro nos dias difíceis, o orgulho nos dias bons.
Ficar órfã é uma palavra triste. Tem um som frio, quase administrativo, como se coubesse numa ficha, num papel, numa declaração qualquer. Mas mais triste do que a palavra é a solidão que ela traz. Porque não se fica apenas sem pai. Fica-se sem aquele amparo antigo, sem aquele lugar no mundo onde podíamos pousar o cansaço. Fica-se sem aquele abraço que dizia “vai ficar tudo bem”, mesmo quando nada estava bem. E eu acreditava. Acreditava porque eras tu a dizer. E há verdades que só existem porque vêm da voz certa.
Dizem que é preciso aceitar a morte. Eu não sei como se faz isso. Talvez haja pessoas que aprendem. Talvez haja quem consiga arrumar a dor numa prateleira, fechar a porta devagar e continuar. Eu ainda não consegui. Aprendi a viver, sim. Aprendi a trabalhar, a estudar, a amar, a cuidar, a sorrir, a levantar-me muitas vezes. Aprendi até a parecer inteira. Mas aceitar é outra coisa. Aceitar parece uma palavra demasiado arrumada para uma dor que nunca encontrou lugar certo.
Tenho saudades sem fim.
E há saudades que não se contam a ninguém porque são só nossas. Choro algumas vezes sozinha, não por vergonha, mas porque há dores que precisam de silêncio. Porque este sentimento é muito meu. Este amor é muito meu. Esta recordação é muito minha. Ninguém pode entrar completamente dentro dela. Podem abraçar-me, podem ouvir-me, podem dizer palavras bonitas, mas há uma parte da perda que é uma língua sem tradução. Uma terra onde só eu caminho.
Sou hoje mais velha do que tu eras quando partiste.
Esta frase parece impossível. Há qualquer coisa de injusto nisto. Eu continuei a fazer anos e tu ficaste parado nos teus 44. Ficaste nessa idade luminosa e brutal, jovem demais para ser memória, vivo demais para caber na palavra morte. Tinhas uma força de viver parecida com a minha. Tinhas esse amanhecer feliz, essa alegria de gostar de pessoas, de ajudar, de amparar, de estar. Ninguém se sentia perdido ao teu lado. Havia em ti uma espécie de bússola. Não daquelas que apontam caminhos perfeitos, mas das que dizem: “vai por aqui, eu estou contigo”.
E depois deixaste de estar.
Ou talvez não tenhas deixado, dizem alguns. Talvez continues de outra forma. Talvez estejas numa dimensão que não sei tocar, num lugar sem corpo, numa luz que me visita sem eu saber. Eu queria acreditar nisso todos os dias. Às vezes acredito. Outras vezes, a tua ausência é tão concreta que parece uma cadeira vazia à minha frente. Tão concreta que quase lhe posso tocar. Tão concreta que pesa mais do que muitas presenças.
Crescer sem o teu amparo endureceu algumas partes de mim. Fragilizou outras. Sensibilizou o resto que sobrava.
Tive de crescer sempre à pressa. Primeiro porque a infância foi dura. Depois porque a juventude se tornou uma mistura de perda e sobrevivência. Há pessoas que crescem devagar, como árvores bem cuidadas. Eu cresci muitas vezes como quem foge de uma tempestade. Com medo, com força, com pressa, com as raízes a procurarem chão onde fosse possível.
Talvez por isso tenha aprendido a ser forte antes de aprender a descansar.
Talvez por isso saiba amparar os outros com tanta facilidade e, ao mesmo tempo, me custe tanto pedir amparo. Talvez por isso reconheça tão depressa uma pessoa perdida. Talvez por isso queira tanto ser porto para quem chega cansado. Talvez por isso, quando alguém se senta ao meu lado com a vida desfeita, eu saiba ficar. Porque um dia também eu precisei que alguém ficasse.
Há heranças que não vêm em testamentos. Tu deixaste-me essa: a vontade de cuidar. A alegria de amanhecer. O gosto pelas pessoas. A atenção aos que tropeçam. A ideia de que ninguém deve sentir-se sozinho quando há uma mão por perto.
E, no entanto, pai, às vezes sou eu que me sinto sem mão.
Sei que tenho um grande amor. Sei que tenho filhos que são casa, chão, porto seguro e futuro. Sei que tenho estudantes que, em tantos dias, também me dão a mão sem saberem. Sei que tenho amigas que são irmãs, dessas que chegam sem pedir licença e ficam como quem acende uma vela dentro da noite. Sei que tenho trabalho, estudos, sonhos, livros, palavras, projetos, tanta coisa que me completa e me chama de volta.
Sei tudo isso.
Mas há vazios que não negam o amor que temos. Apenas lembram o amor que nos falta.
E é isto que às vezes custa explicar. Como podemos ter uma vida cheia e, ainda assim, sentir uma divisão vazia dentro de nós? Como podemos rir de manhã e chorar à noite? Como podemos ser amadas e, mesmo assim, sentir falta daquele amor primeiro, vertical, fundador, aquele amor que vinha de cima como telhado? Como podemos estar rodeadas de gente e, ainda assim, sentir-nos por momentos órfãs outra vez?
Talvez porque um pai não é apenas uma pessoa. Um pai é também uma margem. Um abrigo. Um “eu estou aqui”. Um nome chamado de uma certa maneira. Um olhar que nos reconhece antes de dizermos alguma coisa. Um colo que não pede explicações. Um sítio onde podíamos ser pequenas, mesmo quando já tínhamos crescido.
Quando esse lugar desaparece cedo demais, crescemos meio perdidas. Mesmo quando encontramos caminhos. Mesmo quando construímos família. Mesmo quando fazemos tudo bem. Mesmo quando vencemos. Mesmo quando somos fortes. Há uma parte de nós que continua à procura daquele olhar no meio da multidão.
E talvez seja isso a saudade: procurar no mundo uma pessoa que já não está nele.
Não sei aceitar a tua morte. Talvez nunca aceite. Talvez apenas aprenda, todos os dias, a viver com ela ao meu lado. Como quem aprende a viver com uma janela que nunca fecha completamente. Entra frio por ali. Entra vento. Mas também entra luz. Porque a memória é isto: uma ferida e uma lâmpada. Dói, mas ilumina.
Às vezes sou casa vazia, sim.
Mas talvez uma casa vazia também seja uma casa que espera. Uma casa que recorda os passos de quem a habitou. Uma casa onde ainda há ecos, onde ainda há cheiro a café antigo, onde ainda há uma voz guardada nas paredes. Talvez eu seja vazia apenas na parte onde tu moras. E talvez essa parte nunca volte a encher-se porque há pessoas que não se substituem, não se ultrapassam, não se fecham.
Há pessoas que ficam como ficam as raízes: invisíveis, profundas, necessárias.
E tu ficaste assim.
Por isso, quando a saudade vier, deixo-a entrar. Sento-me com ela. Choro, se for preciso. Falo contigo, mesmo sem resposta. Digo-te que continuo aqui. Que cresci. Que envelheci para além da tua idade. Que tenho tentado ser digna da tua alegria. Que há dias em que sou forte. Que há dias em que sou apenas filha. Que há dias em que volto a ser menina e só queria o teu abraço a dizer-me que vai ficar tudo bem.
Mesmo que não estivesse.
Mesmo que não esteja.
Eu acreditava quando eras tu a dizer.
E talvez, no fundo, continue a acreditar. Porque há amores que continuam a falar connosco muito depois do silêncio.
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