Ainda sobre ontem
Há noites que parecem inventadas para nos lembrar que a vida ainda sabe acender luzes.
A noite de São João no Porto foi uma dessas noites.
O dia já vinha bonito, mas foi ao cair da tarde, no Jardim do Morro, com a Serra do Pilar por perto e o Douro lá em baixo, que tudo começou a parecer maior do que nós. O sol desceu devagar, como se também ele quisesse ficar para a festa. Dourou as casas, tocou a água, atravessou a ponte, demorou-se nos telhados e ofereceu-me um dos pores do sol mais bonitos que já vi.
Há momentos em que a paisagem não se olha: respira-se. E naquele fim de tarde respirei o Porto inteiro.
Do outro lado, a Ribeira começava a acender-se. Gente por todo o lado. Música, vozes, passos, martelinhos, gargalhadas, cheiro a festa e aquela alegria coletiva que só algumas cidades sabem fazer.
O Porto, no São João, não se limita a celebrar. O Porto entrega-se. Perde a compostura, abre as janelas da alma e vem para a rua inteiro, como se cada pessoa trouxesse dentro de si uma pequena fogueira.
E o Douro, esse velho rio paciente, assistia a tudo com a serenidade de quem já viu muitas noites passarem e, ainda assim, continua a espantar-se.
Lancei os meus primeiros balões.
Talvez pareça pouco, mas há primeiras vezes que têm o tamanho de uma promessa. Segurar um balão de São João antes de o largar é quase como segurar um desejo. Primeiro há cuidado, depois hesitação, depois confiança. O fogo aquece o papel, o ar começa a crescer lá dentro, e nós percebemos que há coisas que só sobem quando lhes damos tempo.
Talvez a vida seja também assim: nem tudo se força, nem tudo se empurra. Algumas coisas precisam apenas de calor, paciência e do momento certo para se soltarem.
E, nesses balões que lancei, foram também desejos meus. Desejos pelos meus filhos biológicos, os que a vida me deu de forma primeira e inteira. E desejos pelos meus alunos, esses outros filhos especiais do meu coração, que todos os anos me chegam à vida, me desafiam, me ensinam e ficam em mim de um modo que nenhuma pauta consegue medir.
Lancei desejos por eles todos. Pelos caminhos que ainda vão fazer. Pelas portas que hão de abrir. Pelas quedas de que se levantarão. Pelos sonhos que ainda não sabem que são capazes de cumprir. Pelos dias difíceis em que precisarão de luz. Pelas alegrias que merecem encontrar.
E depois, de repente, milhares de balões no céu.
Milhares.
Como se a cidade tivesse decidido escrever uma carta às estrelas. Como se cada luz levasse um pedido, uma saudade, um agradecimento, uma esperança. O céu ficou cheio de pequenos corações de fogo, subindo devagar, frágeis e teimosos, lembrando-nos que até o que é leve precisa de coragem para partir.
Havia magia no ar. Da verdadeira. Daquela que não precisa de explicação, porque acontece antes das palavras. Estava nos balões, no rio, na música, nas pessoas, na boa companhia, nas conversas que atravessam a noite, na animação de quem se sente vivo sem precisar de justificar a alegria.
Depois veio o fogo de artifício.
Quinze minutos de luz, som e cor. Quinze minutos em que o céu sobre o Douro se abriu como um livro iluminado. As explosões refletiam-se na água, multiplicavam-se nas margens, batiam nas fachadas, subiam acima da ponte, desciam sobre nós em forma de espanto.
O Porto estava no seu melhor: intenso, bonito, antigo e novo ao mesmo tempo. Uma cidade feita de pedra, rio e coração.
Há fogos de artifício que são espetáculo. Este foi mais do que isso. Foi uma espécie de linguagem. Um modo de dizer que há beleza mesmo quando tudo dura pouco. Talvez por isso nos comovam tanto as luzes que desaparecem depressa. Porque nos lembram que a vida também é feita de instantes: passam, mas ficam. Apagam-se no céu, mas acendem qualquer coisa dentro de nós.
A noite terminou com um espetáculo de luz, som e cor. E eu fiquei com a sensação de que algumas noites não acabam quando voltamos para casa. Continuam em nós. No corpo cansado, nos olhos cheios, nas fotografias, nas conversas repetidas, na memória do primeiro balão, no reflexo do fogo sobre o rio, naquela certeza simples de que fui feliz ali.
Feliz em boa companhia. Feliz no meio da multidão. Feliz por estar no Porto, naquela noite em que a cidade pareceu respirar comigo.
O São João tem esta beleza antiga: junta o céu e a terra, o fogo e a água, o riso e a saudade, a festa e a fé. Há quem lance balões. Há quem lance desejos. Há quem lance, sem saber, uma versão mais leve de si mesmo.
Eu lancei os meus primeiros balões. E talvez tenha lançado também alguma coisa que já podia partir.
Porque há noites assim: noites em que a cidade nos pega pela mão, nos leva até ao rio, nos mostra o céu cheio de luzes e nos diz, baixinho, que ainda há muito para celebrar.
E havia. Havia o Porto. Havia o Douro. Havia milhares de balões pelo ar. Havia fogo, música, conversa e alegria.
Havia desejos pelos meus filhos e pelos meus alunos. A minha irmã e os meus sobrinhos ao meu lado ... E havia eu, por instantes, inteira e luminosa, a acreditar outra vez que a vida, quando quer, sabe ser absolutamente incrível.
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