A frágil ilusão da meritocracia
Há uma ideia muito confortável para quem já chegou ao topo: a ideia de que chegou sozinho.
A meritocracia tem qualquer coisa de sedutor. Faz-nos acreditar que o mundo é uma espécie de corrida justa, onde todos partem do mesmo lugar e onde o esforço basta para atravessar a meta. Quem vence merece. Quem perde não trabalhou o suficiente. Parece simples. Limpo. Organizado. Mas a vida raramente cabe em teorias bonitas.
A verdade é que ninguém chega a lado nenhum sozinho.
Há sempre mãos invisíveis no caminho. Pais cansados que trabalharam mais horas para pagar estudos. Professores que acreditaram antes do aluno acreditar em si próprio. Amigos que seguraram dias difíceis. Alguém que abriu uma porta, deu uma oportunidade, explicou outra vez, emprestou tempo, dinheiro, atenção ou cuidado.
O sucesso nunca é obra de uma pessoa apenas. E o insucesso também não.
Há pessoas que correm uma maratona com bons ténis, água fresca e estrada plana. Outras começam descalças, com fome, medo e uma mochila às costas cheia de preocupações que ninguém vê. Depois admiramo-nos que nem todos cheguem ao mesmo tempo.
A meritocracia esquece demasiadas vezes o ponto de partida.
Na teoria, a educação devia ser o grande elevador social. O lugar onde alguém, independentemente da origem, podia crescer, descobrir possibilidades e transformar o próprio destino. Mas, aos poucos, esse elevador vai ficando reservado a uma minoria que consegue pagar o bilhete.
O sucesso académico está cada vez mais ligado ao privilégio de poder investir nele.
Não significa que o esforço não importe. Importa muito. O trabalho transforma pessoas. A disciplina abre caminhos. A persistência muda vidas. Mas esforço sem oportunidade é uma porta fechada por dentro.
Há alunos extraordinários que nunca chegam onde poderiam porque a vida lhes exigiu sobreviver antes de lhes permitir sonhar.
Talvez seja por isso que tento ajudar todos os que posso, dentro daquilo que a minha vida me permite. Ofereço horas sempre que consigo. Ofereço as fotocópias do mês quando vejo que isso pode aliviar alguém. Tiro dúvidas à noite, ao fim de semana, ao domingo, mesmo a alunos que naquele momento não estão a ter explicação comigo. Não o faço por heroísmo, nem por vaidade. Faço-o porque sei que, às vezes, uma ajuda pequena pode impedir que alguém desista.
É a minha forma possível de tentar inverter um pouco o sistema.
De tentar equilibrar a balança, mesmo sabendo que a balança nunca esteve igualmente pousada para todos. Porque há jovens que só precisavam de mais uma ajuda, mais uma oportunidade, mais uma palavra de confiança, mais um adulto que lhes diga: “eu sei que é difícil, mas vamos tentar outra vez”.
Não salvo o mundo com as minhas ajudas. Mas talvez consiga segurar alguns alunos no caminho. Talvez consiga abrir uma janela onde havia uma parede. Talvez consiga, com uma hora oferecida, uma folha impressa, uma dúvida esclarecida ou uma mensagem respondida mesmo que seja tarde da noite, lembrar a alguém que não está sozinho.
E isso também é educação.
Não apenas ensinar conteúdos. Não apenas preparar para testes. Não apenas explicar matéria. Mas tentar que o conhecimento não seja privilégio de poucos. Tentar que a Matemática não se transforme em mais uma barreira para quem já traz tantas. Tentar que o elevador social, mesmo avariado, ainda encontre alguém disposto a empurrar a porta.
E talvez a verdadeira humildade esteja em reconhecer isto: o nosso valor não diminui por admitirmos que também fomos ajudados. Pelo contrário. Só nos torna mais humanos.
Quanto mais estudo, menos acredito em discursos simplistas sobre vencedores e vencidos. Quanto mais aprendo, mais percebo o peso das circunstâncias, das desigualdades, das oportunidades e dos acasos. E talvez por isso desconfie sempre de quem transforma o próprio sucesso numa vitrine permanente de autocelebração.
Há qualquer coisa de profundamente pouco elegante em usar as próprias conquistas para insinuar que os outros falharam porque quiseram.
A vida é mais complexa do que isso.
Há talento desperdiçado por falta de meios. Há inteligência esmagada pelo medo. Há crianças brilhantes sem apoio. Há jovens que nunca tiveram tempo de ser apenas jovens. E há também quem tenha chegado longe porque encontrou pelo caminho pessoas que lhes disseram: “eu ajudo”.
Talvez o verdadeiro mérito esteja menos em subir sozinho e mais em não esquecer quem ficou sem elevador.
E, se um dia chegarmos a algum lugar, talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “como consegui chegar aqui?”
Talvez seja: “quem posso ajudar agora a subir também?”
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