A estrada que me trouxe até aqui

A vida é muitas vezes uma estrada acidentada.

Não daquelas estradas bonitas, lisas, de postal, onde o horizonte parece obedecer-nos e o sol pousa devagar sobre tudo. Falo das outras. Das estradas de terra batida, com curvas apertadas, contracurvas inesperadas, buracos que aparecem onde julgávamos haver chão firme. Estradas onde se levanta pó, onde às vezes escorregamos, onde nem sempre há placas a indicar o caminho.

A minha vida foi, muitas vezes, uma dessas estradas.

Nem sempre houve alcatrão. Nem sempre houve luz. Nem sempre houve infância fácil, nem casa interior arrumada, nem explicações simples para aquilo que doía. Houve dias em que o caminho parecia feito de pedras pequenas, daquelas que entram no sapato e nos obrigam a continuar mesmo assim. Houve momentos em que a vida não perguntou se eu estava pronta. Apenas apareceu com uma curva fechada e disse: agora vira.

E eu virei.

Às vezes com medo, às vezes sem saber e muitas vezes com medo e quase sem forças.
Mas virei.

Talvez crescer seja isto: aprender a conduzir por estradas que não escolhemos. Descobrir que há caminhos que nos ferem, mas também nos ensinam o peso dos passos. Que há buracos que nos obrigam a abrandar. Que há perdas que nos mudam a direção. Que há silêncios que ficam connosco como árvores à beira da estrada, testemunhas mudas do que fomos atravessando.

Durante muito tempo, talvez eu tenha pensado que a vida devia ser mais direita.

Mais justa, mais limpa e mais fácil de explicar.

Hoje já não sei se acredito em estradas direitas. Desconfio delas. As estradas demasiado direitas às vezes não ensinam paisagem nenhuma. É nas curvas que vemos outros ângulos. É nas subidas que percebemos a força das pernas. É nos caminhos de terra que descobrimos se aquilo que nos move é apenas pressa ou se é mesmo vontade de chegar.

A minha estrada ganhou outro sentido quando o amor chegou.

Há trinta e um anos, a vida trouxe-me um amor que ficou. E ficar talvez seja uma das palavras mais bonitas que existem. Porque há quem passe, há quem prometa, há quem faça barulho, há quem brilhe depressa e depois desapareça. Mas há também quem fique. Quem aprenda connosco a mapear os dias. Quem nos conheça nas retas e nas curvas. Quem nos veja cansados, zangados, frágeis, inteiros, e ainda assim escolha o mesmo lugar ao nosso lado.

O amor não endireitou a estrada.

Nenhum amor verdadeiro faz isso.

Mas deu-me companhia para a atravessar. Deu-me mão. Deu-me casa. Deu-me um lugar onde o pó podia assentar. Deu-me a certeza de que, mesmo quando a estrada se tornava difícil, havia alguém que seguia comigo. E há uma diferença imensa entre enfrentar uma tempestade sozinha e atravessá-la com alguém que segura o mapa, mesmo sem saber exatamente onde estamos.

Depois vieram os meus filhos.

E, com eles, a estrada mudou para sempre.

Os filhos são uma espécie de milagre muito concreto. Não daqueles milagres distantes, de igreja e vitral, mas dos outros: os que acordam de madrugada, os que sujam a roupa, os que nos roubam o sono e nos devolvem sentido. Com eles, aprendi que o amor pode caber inteiro num corpo pequeno. Aprendi que uma vida pode ganhar centro. Aprendi que há obras que não se escrevem em papel, nem se constroem em pedra, mas em cuidado, presença, noites mal dormidas, colo, medo, orgulho e uma ternura quase insuportável.

Eles são a minha maior obra.

Não porque sejam meus como se possui uma coisa.
Mas porque os acompanhei, os cuidei, os vi crescer, os amei antes mesmo de saber quem seriam.
Porque em cada um deles há um pedaço de estrada que valeu a pena.
Porque neles a vida me respondeu de uma forma que nenhuma explicação conseguiria.

São o meu maior orgulho.

Não por serem perfeitos. Ninguém precisa de ser perfeito para ser amado. São o meu orgulho porque existem. Porque caminham. Porque se fazem pessoas. Porque me ensinaram a ser melhor, mesmo nos dias em que eu achava que já não tinha nada de novo para aprender.

Hoje, quando olho para trás, vejo a estrada.

Vejo a menina que fui, tantas vezes perdida no meio do caminho. Vejo a mulher que se fez a partir dos solavancos. Vejo as curvas que quase me fizeram desistir. Vejo os buracos onde pensei ficar. Vejo também as mãos que me levantaram, os afetos que me salvaram, os encontros que me deram chão.

E percebo que talvez a vida não nos deva uma estrada lisa.

Talvez nos deva apenas a possibilidade de continuar.

Continuar apesar do pó, apesar das curvas, apesar da terra batida e apesar dos dias em que não sabemos para onde vamos.

Há uma sabedoria estranha nas estradas difíceis. Elas não nos deixam adormecer ao volante. Obrigam-nos a olhar. A escolher. A abrandar. A segurar melhor o volante. A perceber que nem todos os destinos se alcançam depressa e que, às vezes, chegar inteira já é uma vitória enorme.

A minha vida não foi sempre fácil.

Mas foi ficando minha.

Fui aprendendo a habitar as curvas. A fazer dos buracos memória e não morada. A aceitar que algumas partes da estrada continuam sem explicação, mas já não precisam de me prender. Fui aprendendo que o amor pode ser abrigo, que os filhos podem ser farol, que a dor pode deixar cicatriz sem continuar a mandar no caminho.

E talvez seja isto crescer por dentro: deixar de pedir à vida que não tenha pedras e começar a agradecer por ainda haver estrada.

Ainda há estrada.

Ainda há curvas por fazer e paisagens que não conheço, ainda há dias de sol e dias de chuva.
Ainda há subidas que me vão cansar, descidas que me vão devolver o riso e muito caminho pela frente.

Mas eu vou seguindo, com as marcas de todos estes anos, com o amor que veio e ficou, com os filhos que me deram mundo e com a mulher que fui e a mulher que ainda estou a tornar-me.

Sigo sabendo que a vida, mesmo acidentada, também pode ser bonita.

Às vezes, bonita precisamente por isso.

Porque as estradas mais difíceis não nos levam apenas a um lugar.

Levam-nos, muitas vezes, até nós.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Querida C.

Boas notas, más notas (ou como tirar 80% e ainda levar sermão)

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito