Regressar à cidade onde a neve sabe o meu nome
Há fins de semana que ficam
Há lugares que não são apenas lugares. São uma espécie de gaveta antiga dentro do peito, onde guardamos cheiros, vozes, ruas inclinadas, frio nas mãos e uma versão de nós que nunca deixou verdadeiramente de existir.
Este fim de semana voltei à minha cidade-neve. À minha Beira Interior. À minha serra. A esse lugar onde o ar parece mais limpo, mais antigo, mais inteiro. Talvez porque ali o frio não é só temperatura; é memória. Entra-nos no corpo como quem diz: ainda te lembras de mim?
E eu lembro.
Lembro-me da comida que ali sabe como em nenhum outro lado. Há sabores que não se repetem fora da terra onde nasceram. Podemos usar os mesmos ingredientes, seguir as mesmas receitas, aquecer o mesmo pão. Mas falta sempre qualquer coisa. Talvez falte a altitude. Talvez falte a infância. Talvez falte a mão invisível da serra a temperar tudo com pertença.
Voltar a casa é isto: sentarmo-nos à mesa e percebermos que há alimentos que não alimentam apenas o corpo. Alimentam a história.
Mas este regresso teve música.
A cidade encheu-se de capas, vozes, guitarras, bandolins e daquela boémia académica que tem qualquer coisa de desarrumado e luminoso. O festival de tunas, organizado pela tuna da minha filha, trouxe às ruas uma alegria antiga, quase impossível de explicar a quem nunca ouviu um grupo de estudantes cantar como se o mundo ainda estivesse todo por inventar.
Há nos acordes de um bandolim uma espécie de juventude que não envelhece. Uma alegria que tropeça nas pedras da calçada, ri alto, desafina um bocadinho e, ainda assim, acerta no coração. As músicas alegres subiam pela cidade como fumo bom, como lume de inverno, como promessa de que a vida, apesar de tudo, ainda sabe cantar.
E eu fiquei ali, a ver a minha filha no meio daquele mundo académico, com os seus rituais, a sua liberdade, a sua intensidade, e pensei que há momentos em que os filhos nos mostram que cresceram sem nos pedir licença. Crescem. Ocupam lugares. Constroem tribos. Fazem casa noutros braços, noutras cidades, noutras músicas. E nós, mães, ficamos a olhar — com o orgulho encostado à saudade.
Foi também um fim de semana de reencontro.
Reencontrei uma amiga que já não via há dez anos. Dez anos é muito tempo. É tempo suficiente para mudarmos de cabelo, de casa, de certezas, de medos. É tempo suficiente para a vida nos acontecer de formas que nunca imaginámos. Mas há amizades que têm uma estranha desobediência ao calendário. Podemos passar anos sem nos vermos e, quando nos encontramos, o tempo perde a autoridade.
Abraçá-la foi como abrir uma janela numa casa fechada há muito. De repente, entrou ar. Entrou riso. Entrou memória. Entrou aquela intimidade rara de quem nos conheceu noutro capítulo e, mesmo assim, continua a reconhecer a nossa letra.
Gosto destes encontros que nos devolvem pedaços de nós.
Gosto de poder sentar à mesma mesa a minha família e os meus amigos. Ou talvez seja ao contrário: gosto de oferecer os meus amigos à minha família e a minha família aos meus amigos, como quem partilha pão quente. Há qualquer coisa de profundamente bonito nisso: deixar que os mundos que amamos se toquem. Que as pessoas que são nossas se conheçam. Que os afetos deixem de viver em gavetas separadas.
Porque, no fundo, somos feitos disto: dos que nos esperam, dos que regressam, dos que cantam connosco, dos que nos reconhecem depois de dez anos, dos que se sentam à mesa, dos que perguntam se queremos mais um bocadinho, dos que nos fazem rir no meio do nada.
Este fim de semana foi isso.
Foi a alegria de voltar a casa. Foi música nas ruas. Foi a minha filha no centro de uma alegria que também era minha. Foi vê-la atuar no mesmo palco onde eu assisti, há muitos anos, ao meu primeiro festival de tunas. Foi uma amiga reencontrada. Foi a serra a lembrar-me que há raízes que não prendem: sustentam. Foi a Beira Interior a dizer-me, baixinho, que podemos viver longe, trabalhar longe, correr longe, mas há sempre uma parte de nós que fica ali, entre o frio, a pedra, o pão, a música e a memória.
Regressei cansada, mas feliz.
E talvez seja essa a melhor forma de voltar de casa: com o corpo cansado da viagem, mas a alma mais arrumada. Como se, por dois dias, tudo tivesse regressado ao seu lugar.
Há fins de semana que não passam. Ficam.
Como uma canção de uma tuna numa rua estreita.
Como um abraço guardado durante dez anos.
Como a comida da nossa terra.
Como a certeza simples e imensa de que há lugares onde a vida nos reconhece antes mesmo de dizermos o nosso nome.
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