Prefiro vistas largas
Muito se fala hoje em foco.
Temos de manter o foco. Não perder o foco. Estar focados nos objetivos. Foco no estudo, foco no trabalho, foco na vida, foco no futuro, foco no foco — como se a existência fosse uma lanterna apontada sempre para o mesmo sítio.
Confesso: a palavra irrita-me um bocadinho.
Não por aquilo que pretende dizer, mas pelo que muitas vezes acaba por sugerir. Quando me dizem para manter o foco, imagino logo um olhar afunilado, preso a um ponto, quase incapaz de ver o que acontece à volta. Um olhar que se estreita tanto para chegar a uma meta que corre o risco de perder a paisagem inteira.
E eu gosto de paisagens.
Gosto de olhar largo. De ver longe e para os lados. De perceber que a vida não acontece apenas na meta, mas também nas margens, nos desvios, nas pessoas que encontramos, nos sinais pequenos que só se veem quando não estamos obcecados com uma única direção.
O foco pode ser útil, claro.
É preciso foco para resolver um exercício difícil, para estudar uma matéria exigente, para terminar uma tarefa, para cumprir um prazo. A atenção concentrada é uma ferramenta. Mas talvez o erro esteja em transformar a ferramenta em modo de vida.
Porque viver sempre focado pode tornar-nos eficazes, mas também pode tornar-nos estreitos.
A psicologia ajuda-nos a perceber isto. Quando estamos demasiado pressionados, ansiosos ou obcecados com um resultado, o nosso campo de atenção tende a afunilar. Vemos menos. Pensamos pior. Perdemos criatividade, flexibilidade e capacidade de adaptação. Às vezes, por querermos tanto chegar a um ponto, deixamos de perceber que havia outro caminho.
Por isso, quando falam de foco no estudo, eu prefiro falar de determinação.
Determinação não é ficar preso a uma coisa. É continuar, mesmo quando custa. É estudar com método, cumprir etapas, voltar ao exercício, corrigir o erro, insistir. A determinação tem movimento. Não é uma prisão da atenção; é uma decisão interior.
Quando falam de foco nos objetivos, prefiro falar de direção.
A direção permite avançar sem deixar de olhar em volta. Quem tem direção sabe para onde quer ir, mas não precisa caminhar de olhos fechados. Pode ajustar o caminho. Pode aprender com o imprevisto. Pode reconhecer que, às vezes, a estrada muda e isso não significa desistir; significa pensar melhor.
Quando falam de manter o foco na vida, prefiro dizer que o importante é viver.
Viver não cabe num ponto fixo. Viver exige atenção, sim, mas uma atenção larga. Uma atenção capaz de ver o trabalho e também o descanso. O sonho e também o presente. A meta e também quem caminha connosco. O sucesso e também o preço que estamos a pagar por ele.
Há pessoas tão focadas em chegar que se esquecem de estar.
Esquecem-se de almoçar sem pressa. De ligar a alguém. De perguntar “como estás?”. De reparar no sol. De agradecer uma pequena vitória. De perceber que o corpo está cansado. De reconhecer que há coisas importantes que não aparecem nos currículos, nem nos certificados, nem nas metas cumpridas.
Talvez seja por isso que prefiro falar de amplitude.
Amplitude do olhar.
Amplitude do pensamento.
Amplitude da vida.
Uma pessoa de vistas largas não é uma pessoa sem objetivos. Pelo contrário. É alguém que sabe que os objetivos precisam de contexto, humanidade e sentido. É alguém que compreende que uma meta só vale a pena se não nos empobrecer por dentro.
No estudo, isto também é verdade.
Não quero alunos apenas focados em decorar para o teste. Quero alunos determinados a compreender. Quero que olhem para o exercício e perguntem: o que está aqui em causa? Que caminho posso seguir? Que erro cometi? Que ligação há com o que já aprendi?
Aprender exige concentração, sim. Mas exige também curiosidade, relação, pensamento crítico e abertura. Um aluno demasiado focado na nota pode esquecer o mais importante: aprender a pensar.
E pensar precisa de espaço.
A vida, como a Matemática, não se resolve apenas olhando para um ponto. Às vezes é preciso afastar um pouco a folha, ver a figura inteira, perceber as relações, ligar partes ao todo. Há problemas que só se compreendem quando deixamos de os olhar de tão perto.
Talvez o foco seja uma lente.
Útil quando precisamos de nitidez.
Mas ninguém vive bem com uma lupa encostada aos olhos o tempo todo. Há momentos em que é preciso levantar a cabeça, abrir a janela e deixar o olhar descansar no horizonte.
Eu não quero viver afunilada.
Quero ter direção, mas não rigidez.
Quero ter disciplina, mas não cegueira.
Quero ter ambição, mas não perder ternura.
Quero alcançar metas, mas continuar a reconhecer as flores pelo caminho.
Porque, no fim, talvez não baste chegar.
É preciso chegar inteira.
Com mundo dentro.Com gente. Com memória. Com paisagem.
E talvez seja essa a minha pequena resistência a esta obsessão pelo foco: eu não quero apenas olhar para a meta: Quero continuar a ver a vida. Toda.
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