Há muitas maneiras de aprender

Há dias longos que acabam com uma espécie de cansaço bom.

Daqueles em que o corpo pede silêncio, mas o coração fica acordado, ainda a saborear uma mensagem, uma conquista, uma meta alcançada. Há mensagens que chegam ao fim do dia e nos lembram por que fazemos isto. Por que insistimos. Por que explicamos outra vez. Por que procuramos mais uma forma, mais um exemplo, mais um caminho para chegar à cabeça — e ao coração — de cada aluno.

Ver um aluno chegar longe é uma alegria muito difícil de explicar.

Não é apenas a nota. Não é apenas o teste. Não é apenas o exame vencido. É perceber que, algures no caminho, aquele aluno começou a acreditar um pouco mais em si. Começou a pensar melhor. A organizar-se melhor. A olhar para a Matemática não como um muro, mas como uma linguagem que, com esforço e método, também pode ser compreendida.

Ensinar Matemática nunca foi, para mim, debitar conteúdos.

Paulo Freire criticava essa ideia de educação como depósito, como se o professor despejasse matéria e o aluno tivesse apenas de a guardar. Eu também não acredito nisso. Um aluno não é uma gaveta onde se arrumam fórmulas. É uma pessoa inteira, com medos, ritmos, dúvidas, histórias, bloqueios, talentos escondidos e formas muito próprias de aprender.

Aprender Matemática não é decorar fórmulas e repetir exercícios até à exaustão.

Claro que é preciso treino. Claro que é preciso praticar. Mas é preciso escolher bem os exercícios, saber quando os fazer, perceber por que razão se fazem naquela ordem e que competência se está a trabalhar em cada etapa. Um exercício não deve ser apenas mais uma conta. Deve ser uma peça de caminho.

Há exercícios que servem para ganhar confiança.
Outros para consolidar bases.
Outros para provocar dificuldade.
Outros para mostrar que ainda há falhas.
Outros para preparar o aluno para pensar sob pressão.

E é aqui que ensinar se torna também uma arte.

Porque não se explica da mesma forma a todos. Há alunos que precisam de esquemas. Outros de exemplos. Outros de analogias. Outros de silêncio para pensar. Outros precisam que os deixem errar sem se sentirem diminuídos. Outros precisam de uma chamada à razão, firme mas cuidadosa. Outros precisam apenas que alguém lhes diga: “tu consegues, mas agora tens de trabalhar.”

Eduardo Sá lembra-nos muitas vezes que educar é ver a criança ou o jovem por inteiro, não apenas pelo resultado que apresenta. E isso é tão importante. Porque por trás de uma dificuldade pode haver medo. Por trás de uma distração pode haver ansiedade. Por trás de uma resposta errada pode haver uma tentativa corajosa de pensar.

Ensinar exige atenção.

Exige perceber que cada aluno é único e especial, não no sentido fácil da palavra, mas no sentido profundo: cada um traz uma forma própria de estar no mundo. E se há muitas maneiras de aprender, há ainda mais maneiras de ensinar.

Edgar Morin ajuda-nos a pensar isto quando fala da complexidade. O conhecimento não vive isolado. Uma fórmula não existe sozinha. Um conteúdo liga-se a outro, uma dúvida de hoje pode nascer de uma falha antiga, uma dificuldade num exercício pode revelar uma fragilidade no raciocínio, na leitura, na autonomia, na gestão do tempo ou na confiança. Ensinar é ligar partes ao todo. É ajudar o aluno a compreender o caminho, não apenas a chegar ao resultado.

Por isso gosto tanto quando vejo um aluno começar a justificar melhor, a questionar, a desconfiar de uma resposta fácil, a procurar rigor. A Matemática também ensina pensamento crítico. Ensina a não aceitar qualquer conclusão. Ensina a provar, a verificar, a rever, a corrigir. Ensina que a pressa raramente é amiga do raciocínio.

E há uma beleza enorme nisso.

Porque quando um aluno aprende a pensar melhor em Matemática, aprende também qualquer coisa sobre a vida. Aprende que os problemas se enfrentam por etapas. Que nem tudo se resolve à primeira. Que errar não é o fim. Que o rigor importa. Que a disciplina não é castigo, é caminho. Que os sonhos precisam de método para deixar de ser apenas sonhos.

Hoje foi um dia longo.

Mas houve uma mensagem que me fez sentir que estou no caminho certo. Que aquilo que faço tem sentido. Que não estou apenas a ensinar conteúdos, mas a acompanhar percursos. A ajudar alunos a crescer no raciocínio, na confiança, na autonomia e na coragem.

E talvez seja isto que mais me comove no ensino: perceber que, quando fazemos bem o nosso trabalho, não deixamos apenas matéria explicada.

Deixamos pensamento.
Deixamos método.
Deixamos exigência.
Deixamos cuidado.
Deixamos um pouco de nós no caminho dos outros.

E, às vezes, quando um aluno chega longe, sentimos que também nós fomos um bocadinho com ele.

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