A competição como mau gosto

Há uma competição silenciosa a atravessar os nossos dias.

Não é apenas a competição pelo lugar, pela nota, pelo cargo, pelo reconhecimento. É uma competição mais subtil e, talvez por isso, mais perigosa: quem sofre mais, quem trabalha mais, quem sabe mais, quem é melhor aluno, melhor professor, melhor amigo, melhor mãe, melhor pessoa. Até a dor, que devia aproximar-nos, parece às vezes transformada em medalha.

Vivemos numa época estranha.

Uma época em que tudo precisa de ser mostrado, narrado, provado, comparado. Como se a vida só tivesse valor quando exposta numa montra. Como se o bem que fazemos só existisse se for anunciado. Como se a competência precisasse de aplauso permanente para se manter de pé.

Lipovetsky ajuda-nos a pensar este tempo: um tempo marcado pelo individualismo, pelo excesso, pela sedução da imagem e pela necessidade constante de afirmação. Já não basta ser. É preciso parecer. Já não basta fazer. É preciso mostrar que se fez. Já não basta saber. É preciso garantir que os outros saibam que sabemos.

E é aqui que a competição começa a roçar o mau gosto.

Quando, para alguém se afirmar, precisa diminuir o outro. Quando a autopromoção nasce da crítica disfarçada. Quando se fala mal dos colegas para parecer mais competente. Quando se apaga a luz alheia na esperança ingénua de que a nossa brilhe mais. Quando a vida profissional deixa de ser lugar de trabalho, crescimento e colaboração, para se transformar numa arena de vaidades.

Há qualquer coisa profundamente triste nisso.

Porque podíamos ser todos bons sem precisar de competir dessa forma. Podíamos reconhecer o valor dos outros sem sentir que perdemos espaço. Podíamos elogiar sem cálculo. Aprender sem inveja. Crescer sem humilhar. Trabalhar bem sem anunciar constantemente que trabalhamos melhor do que os demais.

A verdadeira competência não precisa de fazer barulho.

Vê-se no cuidado, na consistência, na humildade, na forma como alguém trata os outros quando ninguém está a assistir. Vê-se no rigor silencioso, na preparação, na ética, na capacidade de reconhecer que não sabemos tudo. Vê-se, sobretudo, na forma como lidamos com o mérito dos outros.

Desconfio sempre da autopromoção excessiva.

Desconfio do elogio fácil, da frase demasiado polida, da necessidade permanente de provar valor. Talvez porque sempre acreditei que aquilo que é sólido não precisa de se anunciar a cada instante. Uma árvore não explica as suas raízes. Cresce. Dá sombra. Dá fruto. Resiste.

Quanto mais estudo, mais percebo o tamanho do caminho que me falta percorrer.

E talvez seja essa a parte mais bonita do conhecimento: ele não nos torna maiores no sentido vaidoso da palavra; torna-nos mais conscientes da nossa pequenez. Quanto mais aprendemos, mais percebemos que há muito por saber. Quanto mais caminhamos, mais estrada aparece. Quanto mais crescemos, mais devíamos ganhar humildade.

Mas nem sempre é isso que acontece.

Há quem use o conhecimento como pedestal. Há quem transforme títulos em distância. Há quem confunda competência com superioridade. Há quem fale dos outros como se a própria vida fosse uma candidatura permanente a ser melhor do que alguém.

Eu não quero viver assim.

Não quero disputar quem sofre mais, quem faz mais, quem sabe mais, quem chega mais longe. Não quero transformar a vida numa tabela classificativa. Já basta o mundo medir tanta coisa. Não precisamos medir também a bondade, a dor, a amizade, o esforço e a humanidade.

A falta de empatia começa muitas vezes aí: quando deixamos de ver o outro como pessoa e passamos a vê-lo como ameaça.

O colega deixa de ser colega e passa a ser concorrente. O amigo deixa de ser amigo e passa a ser comparação. O sucesso do outro deixa de ser motivo de alegria e passa a ser desconforto. E, nesse lugar, perdemos todos.

Perdemos humanidade.
Perdemos delicadeza.
Perdemos ética.
Perdemos a capacidade simples de dizer: ainda bem que conseguiste.

A humildade não é fingir que não temos valor.

Eu sei o que valho. Sei o que faço. Sei o trabalho que me custa chegar onde chego. Sei as horas, o esforço, a dedicação, o estudo, a persistência. Mas saber o nosso valor não nos dá o direito de diminuir o valor dos outros. Pelo contrário. Quem sabe verdadeiramente quem é não precisa viver a provar que é mais.

Talvez seja isso que falta: a serenidade de sermos bons sem precisarmos ser melhores do que alguém.

Fazer bem o nosso trabalho. Cuidar dos nossos. Estudar. Aprender. Ensinar. Crescer. Corrigir o que há a corrigir. Seguir caminho com dignidade. Sem ruído desnecessário. Sem vaidade excessiva. Sem transformar cada conquista numa arma contra os outros.

A vida já é suficientemente difícil para ainda a fazermos uns contra os outros.

Prefiro acreditar noutra forma de estar.

Uma forma mais limpa. Mais ética. Mais humana. Onde o brilho de alguém não me ameaça. Onde a competência do outro me inspira. Onde a dor do outro não precisa ser menor do que a minha para ser respeitada. Onde podemos todos crescer sem nos atropelarmos.

Porque, no fim, talvez o verdadeiro sinal de maturidade não seja vencer a competição.

É deixar de precisar dela.

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