1000 ideias

Há uma altura do ano em que a cabeça começa a fazer mais barulho do que a sala cheia.

É quase verão. Os alunos ainda estão em testes, ainda faltam os exames, as contas ainda se fazem no quadro, as dúvidas ainda aparecem com aquele ar de urgência de quem descobriu, tarde demais, que a Matemática afinal existia desde setembro. Mas dentro de mim já há uma pequena revolução a acontecer.

Trago mil ideias guardadas.

Planos para a Academia. Planos para os alunos. Planos para textos. Planos para projetos. Planos para reorganizar, melhorar, inventar, fazer diferente. Ideias que aparecem no meio de uma explicação, entre uma derivada e uma gargalhada, entre um “tenho uma questão!” e um “professora, isto sai no exame?”. Às vezes penso que a minha cabeça devia ter uma sala de espera, porque há dias em que as ideias chegam todas ao mesmo tempo e nenhuma sabe aguardar a sua vez.

Ensinar tem muito disto.

Achamos que somos nós que vamos ensinar os alunos, mas depois eles entram pela nossa vida adentro com perguntas inesperadas, expressões absolutamente improváveis, dramas de juventude, gargalhadas que desarmam qualquer cansaço e uma capacidade maravilhosa de nos lembrar que a vida não deve ser levada sempre com tanta solenidade.

Eles ensinam-nos também.

Ensinam-nos paciência. Ensinam-nos humor. Ensinam-nos a explicar a mesma coisa de dez formas diferentes e a descobrir uma décima primeira quando nenhuma das anteriores funcionou. Ensinam-nos que cada aluno tem um ritmo, uma ferida, uma graça, uma luz, uma resistência própria. Ensinam-nos que há perguntas que parecem de Matemática, mas são, no fundo, pedidos de confiança.

E talvez seja por isso que, quando o verão se aproxima, eu não penso apenas em descanso.

Penso em recomeço.

Penso no que posso preparar para que o próximo ano seja melhor. Penso em novas formas de chegar aos alunos. Em estratégias mais leves, mais claras, mais humanas. Penso em materiais, ideias, atividades, mudanças pequenas que podem fazer diferença grande. Penso em como transformar a sala num lugar onde se aprende, sim, mas também onde se ri, onde se ganha coragem, onde se pode errar sem cair do mundo.

Tenho tantos planos que quase me rio de mim.

Porque uma parte de mim sabe que devia parar. Respirar. Deixar o verão entrar devagar. Ficar quieta um bocadinho. Mas a outra parte, essa que nunca se cala, já está de caderno aberto, caneta na mão e uma lista mental interminável de coisas a fazer.

Talvez eu seja feita assim.

De inquietação boa. De vontade de melhorar. De ideias a nascerem antes de haver tempo para elas. De amor pelo que faço. De uma espécie de primavera interna que não respeita calendários.

E, no fundo, ainda bem.

Porque ensinar, quando é verdadeiro, nunca acaba na última aula. Continua dentro de nós. Continua nas perguntas que ficaram por responder, nos alunos que ainda queremos ver vencer, nas gargalhadas que ecoam, nos desafios que nos obrigaram a crescer, nas ideias que ficam a fermentar em silêncio até se transformarem em futuro.

O verão virá.

Com sol, com pausa, com dias mais compridos e talvez com a promessa de algum descanso. Mas também virá com esta cabeça a fervilhar, cheia de planos, cheia de vontade, cheia de projetos que ainda não contei a ninguém.

E eu gosto disso.

Gosto desta sensação de que ainda há tanto para fazer. Tanto para aprender. Tanto para criar. Tanto para dar. Gosto de sentir que a vida profissional também pode ter entusiasmo, surpresa, movimento e alegria.

Porque ensinar também é isto: ficar cansada no fim do ano e, ainda assim, começar a sonhar com o próximo.

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