Chegou ao fim …

A minha viagem chegou ao fim. Mas Londres não terminou hoje. Apenas fechou os olhos, como quem descansa depois de nos ter acolhido com a generosidade rara das cidades que sabem ser casa sem nos pertencerem.

Partimos com sol. Céu azul, como se a cidade quisesse contrariar a sua própria fama e dizer-nos, em silêncio, que também ela sabe ser leve quando se despede. Chegámos assim. Partimos assim. Como se o tempo, por uns dias, tivesse decidido ser gentil.

Mas o que realmente termina — ou talvez não — é esta espécie de regresso que fizemos a nós mesmas.

Há amizades que resistem. A nossa não só resistiu — expandiu-se. Como uma cidade invisível que foi crescendo dentro do tempo, atravessando anos, silêncios, distâncias e as pequenas separações que a vida vai desenhando sem pedir licença. E, ainda assim, intacta. Ou melhor: mais inteira.

Durante estes dias, voltámos aos dezassete anos. Não porque o tempo tenha recuado, mas porque nunca saiu verdadeiramente de nós. Há coisas que não envelhecem — apenas ganham camadas. Olhámo-nos e soubemos. Como sempre soubemos. As frases começam numa e terminam na outra, como se fossem pontes invisíveis lançadas entre dois pensamentos que já nasceram ligados.

Somos diferentes na forma como atravessamos o mundo, mas talvez seja precisamente aí que nos encontramos. Como duas margens que nunca se confundem, mas que fazem sentido porque o rio existe entre elas. Complementamo-nos sem esforço, como se a vida, por uma vez, tivesse escrito algo certo à primeira tentativa.

Somos irmãs de coração. Unidas sem necessidade de explicação. Cúmplices de silêncios e de risos. Leais, mesmo quando o mundo nos puxou em direções opostas. Há laços que não se veem — mas sustentam.

Londres foi o cenário. Deu-nos ruas, luz, sabores, e uma pausa rara. Deu-nos dias sem pressa — e isso, hoje, é quase um luxo revolucionário. Caminhámos sem horários, vivemos sem notificações, existimos sem urgência. E nesse intervalo, encontrámo-nos outra vez.

Levo na bagagem mais do que presentes. Levo memórias que não cabem em fotografias, experiências que não se explicam, apenas se sentem — como o vento junto ao Tamisa ou o eco de uma gargalhada numa rua qualquer.

Levo também saudades. Dos meus. Da minha casa, dos meus alunos. Do meu cachorro. Porque partir é sempre isso: um equilíbrio estranho entre o que se ganha e o que nos chama de volta.

Regresso hoje mais leve. Mais serena. Menos apressada. Como se Londres me tivesse devolvido partes de mim que eu nem sabia que tinha deixado pelo caminho.

Talvez viajar seja isto: um gesto silencioso de reconstrução.

E talvez a amizade seja o lugar onde nunca nos perdemos, mesmo quando o resto do mundo insiste em mudar.


PB


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