A sala mais bonita e feliz da cidade
São 21h30 quando o dia começa a terminar.
Ainda há explicações. Ainda há vozes. Ainda há cadernos abertos, contas por acabar, dúvidas que resistem, lápis cansados e aquela estranha energia que aparece quando todos devíamos estar mais quietos, mas ainda há um objetivo à nossa frente.
Hoje foi dia cheio. Sala cheia.
Alunos que entram. Alunos que saem. Outros que chegaram de manhã e ficaram quase como quem se muda temporariamente para dentro de uma possibilidade. Há quem diga:
“Aqui estudo mais focado.”
E eu sorrio, porque sei que é verdade.
Aqui há foco. Há método. Há trabalho. Há uma espécie de pacto silencioso entre eles e eu: ninguém se abandona. Aqui até pode haver preguiça, claro. Somos todos humanos. Mas, se há, disfarçam melhor, porque eu ando por perto. E quando a preguiça tenta sentar-se à mesa, eu empurro-a para o lado e digo:
“Vamos. Sempre em frente, meninos.”
Há dias em que ensinar é isto: empurrar sem magoar. Puxar sem partir. Acreditar com tanta força que, por momentos, a nossa fé emprestada chega para dois.
Pelo caminho, há gargalhadas. Muitas. Há momentos sérios. Há chamadas de atenção, porque há sonhos que não combinam com distrações eternas. Há abraços. Há olhares cansados. Há matemática que não acaba, como se os números tivessem decidido multiplicar-se só para testar a nossa paciência.
Mas eu gosto destes dias.
Gosto de os ver assim, dentro do esforço. Gosto da sala cheia de futuro. Gosto do barulho das folhas, das perguntas a cruzarem-se, da concentração que pesa no ar, da alegria que entra de repente e desarruma tudo por uns segundos. Gosto até daquela confusão boa que só existe nos lugares onde a vida está a acontecer.
Sei que estes são tempos exigentes. Sem tréguas. Sem grandes pausas.
O exame de Matemática aproxima-se.
O exame dos exames.
A prova rainha.
Aquela que abre portas e, se tudo correr bem, derruba alguns muros.
Gosto de a ver assim, esta prova. Não como um monstro, mas como uma montanha. Alta, sim. Exigente, sim. Às vezes injusta na forma como assusta. Mas atravessável. Subida passo a passo, exercício a exercício, erro a erro, manhã a manhã.
Curiosamente, não ando cansada.
Ou talvez ande e não repare.
Deito-me tarde. Acordo cedo. Trago exames da faculdade para corrigir, uma formação para dar, um doutoramento em andamento, mil tarefas abertas dentro da cabeça, como separadores de um navegador que ninguém consegue fechar. Sei que também preciso de parar. Sei que o corpo não é uma máquina, apesar de eu às vezes negociar com ele como se fosse.
Mas não será para já.
Ainda há muito para fazer.
Há estes meninos para empurrar até ao grande dia. Há dúvidas para desfazer. Há medos para arrumar em gavetas mais pequenas. Há confiança para construir nos sítios onde ela ainda treme.
E depois há o verão.
Esse verão que eu preciso medir ao milímetro, como quem mede uma peça rara. Quero ver amigas que não vejo há anos. Quero almoçar e jantar com família e amigos. Quero ter tempo para os meus. Quero abrir a escolinha de verão. Quero avançar no doutoramento. Quero ler. Escrever. Apanhar sol. Quero lembrar-me de que a vida também acontece fora dos horários, fora das pautas, fora dos exames, fora da sala.
Mas hoje ainda foi aqui.
Nesta sala.
Nesta espécie de casa onde se fazem contas e, sem darmos por isso, também se fazem pessoas um pouco mais corajosas.
Às 21h30, o dia começa finalmente a fechar-se. Os últimos alunos saem. Levo comigo os seus medos, as suas frases, os seus “não consigo”, os seus “já percebi”, os seus risos. Levo também a sensação bonita de que estivemos todos a remar para o mesmo lado.
A sala fica quieta.
As mesas regressam ao lugar.
As cadeiras alinham-se.
O quadro descansa.
A matemática pousa por umas horas.
Fica só a Emília.
A verdadeira dona desta academia, naturalmente. Observa tudo com aquele ar de quem sabe que a gestão do espaço lhe pertence e que nós somos apenas funcionários autorizados a usar as mesas.
E eu fico também, por instantes.
Cansada, sim.
Mas feliz.
Há uma felicidade muito particular nos dias que acabam depois de termos dado tudo. Não é euforia. Não é descanso. É uma espécie de paz cansada. Uma certeza pequena de que, apesar do ruído, apesar da pressa, apesar da exigência, estivemos exatamente onde devíamos estar.
Amanhã começaremos de novo.
Eles chegarão com dúvidas. Eu chegarei com café, sorriso, firmeza e planos. A Emília fiscalizará tudo. A Matemática voltará a ocupar o quadro. E a vida, essa matéria muito mais difícil, continuará a ser estudada entre uma função e outra.
Aqui.
Na sala mais bonita e feliz da cidade.
Onde se trabalha muito.
Onde se ri muito.
Onde se exige porque se acredita.
Onde ninguém fica para trás sem que eu tente, pelo menos, puxá-lo mais um bocadinho.
Amanhã voltamos.
Sempre em frente, meninos.
Ainda há caminho.
Ainda há tempo.
Ainda há sonhos à espera de passar à realidade.
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