Shhhhhhh
Vivemos numa sociedade estranha: primeiro manda-nos correr e depois vende-nos cursos para desacelerar.
Pede-nos produtividade, rapidez, resposta imediata, presença em todo o lado, eficiência sem falhas, disponibilidade sem cansaço, paciência sem limites. Mas, ao mesmo tempo, diz-nos: respira, abranda, encontra o teu centro, fala devagar, não te exaltes, não sejas demais.
Eu ouço isto desde pequena.
“Fala menos.”
“Acalma-te.”
“Respira.”
“Fala devagar.”
“Pára quieta.”
“Cala-te cinco minutos.”
E eu, que achava que estava apenas viva, fui aprendendo que talvez estivesse a ocupar espaço a mais.
Sempre me lembro de ser a mais faladora da aula. A mais entusiasmada. A que saía cedo para o intervalo e regressava depois da hora, com as mãos cheias de planos, ideias e urgências. Eu não ia para o recreio brincar apenas. Ia fundar mundos. Inventava teatros, escrevia os textos todos, distribuía papéis, organizava entradas e saídas, dizia quem ficava onde, quem falava primeiro, quem precisava de mais emoção, quem devia esperar pela deixa.
Mas nunca me pedissem para representar.
Eu não queria estar no centro do palco. Queria construir o palco. Queria ser a narradora, a realizadora, a que via tudo de fora e, ao mesmo tempo, estava dentro de tudo. A que orientava, sugeria, corrigia, inventava, puxava pelos outros, acendia a brincadeira. Eu era, talvez, uma criança com demasiadas janelas abertas.
E isso, para muita gente, parecia desordem.
Pela vida fora ouvi muitas vezes: “A Paula é muito acelerada.” “Sempre muito apressada.” “Sempre a mil.” “Nunca pára.” E eu ficava espantada, porque por dentro aquilo era apenas o meu ritmo normal. Era assim que o mundo me acontecia: em simultâneo, em camadas, em frases que se atropelavam antes de chegar à boca, em ideias que nasciam umas dentro das outras como bonecas russas.
Eu não sabia que isso podia ter nome.
Durante muito tempo, achei que era feitio. Excesso. Falta de calma. Falta de filtro. Falta de qualquer coisa que os outros pareciam trazer de origem e eu não.
Hoje sei que ter PHDA é, muitas vezes, viver com um motor ligado por dentro, mesmo quando o mundo nos pede para estacionar em silêncio. É ter uma mente que corre por atalhos, estradas secundárias, pontes, túneis e campos abertos enquanto os outros seguem a linha reta. É sentir que a vida chega depressa demais ao pensamento e que as palavras, coitadas, tentam acompanhar como podem.
Mas uma criança não sabe explicar isto.
Uma criança só percebe que a mandam calar.
E quando nos mandam calar muitas vezes, não calamos apenas a voz. Calamos também a confiança. Calamos a espontaneidade. Calamos a alegria de participar. Calamos o impulso de dizer “tive uma ideia!”. Calamos a mão levantada antes de tempo. Calamos a vontade de começar uma brincadeira. Calamos o brilho, porque o brilho também incomoda quando entra em salas habituadas à penumbra.
Aos poucos, fui-me apagando.
Não de repente. Ninguém se apaga de uma vez. Apagamo-nos por camadas. Um comentário aqui, uma repreensão ali, um olhar cansado, uma gargalhada dos outros, uma frase dita como brincadeira, mas que fica a fazer casa dentro de nós. “Tu falas demais.” “Tu és intensa.” “Tu és cansativa.” “Tu queres sempre mandar.” “Tu estás sempre acelerada.”
E uma pessoa começa a aprender a existir em versão reduzida.
Como uma vela que antes ardia alta e, para não gastar oxigénio aos outros, se habitua a uma chama baixa. Ainda ilumina, mas menos. Ainda aquece, mas pouco. Ainda está ali, mas com cuidado. Com medo de fazer sombra ao contrário: de fazer luz demais.
Fui aprendendo a medir o que dizia. Quando dizia. Como dizia. A escolher as palavras antes de as sentir. A não começar a frase antes de ter autorização invisível. A entrar nas conversas pela porta mais pequena. A ficar na sombra, não porque a sombra me servisse, mas porque parecia mais segura.
Aos poucos, deixei de ser eu inteira.
Passei a ser uma versão editada de mim. Uma versão com legendas, cortes e aviso prévio. Uma Paula mais aceitável. Mais silenciosa. Mais controlada. Mais “bem-comportada”. Mas também mais distante da menina que inventava teatros no recreio e escrevia papéis para toda a gente, não por vaidade, mas porque tinha mundos dentro dela e precisava de lhes dar forma.
Há uma tristeza especial em perceber que fomos domesticando partes nossas que, afinal, talvez fossem dons.
Porque o entusiasmo também é um dom. A rapidez também pode ser inteligência em movimento. A fala abundante também pode ser pensamento à procura de casa. A vontade de organizar brincadeiras pode ser liderança. A insistência pode ser paixão. A intensidade pode ser sensibilidade. O problema nunca foi haver muito. O problema foi não terem sabido ajudar-me a dar forma ao muito.
Educar não devia ser apagar fogos interiores. Devia ser ensinar a construir lareiras.
E talvez seja por isso que hoje, como professora, olho de outra maneira para os alunos que falam demais, que se levantam, que interrompem, que trazem perguntas fora de horas, que têm ideias descabidas, que parecem não caber no ritmo da sala. Às vezes vejo neles aquilo que fui. E tenho cuidado.
Porque há crianças que não precisam de ser caladas. Precisam de ser escutadas com estrutura.
Precisam que alguém lhes diga: “Eu gosto da tua energia. Vamos aprender a usá-la.”
“Eu gosto das tuas ideias. Vamos aprender a esperar pela vez.”
“Eu gosto da tua voz. Vamos aprender também a ouvir.”
“Eu gosto da tua luz. Vamos descobrir onde ela pode iluminar sem incendiar.”
Isto é muito diferente de dizer: “Cala-te.”
Há palavras que fecham portas. E há palavras que ensinam a abrir janelas com cuidado.
Durante muitos anos confundiram acalmar-me com diminuir-me. E eu própria, sem perceber, continuei esse trabalho por dentro. Tornei-me fiscal de mim. Vigiei o entusiasmo. Controlei o riso. Travei a frase. Engoli ideias. Pedi desculpa por ocupar tempo. Antecipei rejeições. Fingi tranquilidade quando por dentro havia uma feira inteira a montar tendas.
Ter PHDA e viver controlada é uma espécie de contradição permanente. É como pedir ao mar que seja lago. Por fora pode até parecer quieto, mas por dentro há correntes, marés, peixes luminosos, naufrágios antigos e barcos a pedir partida.
E, no entanto, a vida vai-nos ensinando que não podemos ser só impulso. Também precisamos de aprender a respirar. A escutar. A esperar. A perceber o outro. A não atropelar. A transformar velocidade em direção.
Mas isto deve ser aprendizagem, não amputação.
Hoje sei que não quero voltar a ser uma criança sem travões. Mas também não quero continuar a ser uma adulta sem voz. Quero encontrar uma forma inteira de existir: com intensidade e consciência, com entusiasmo e escuta, com rapidez e ternura, com pensamento livre e cuidado pelos outros.
Quero poder falar sem pedir desculpa por ter ideias.
Quero poder calar-me sem sentir que estou a desaparecer.
Quero poder entusiasmar-me sem me envergonhar.
Quero poder descansar sem achar que traí o meu próprio ritmo.
Quero poder ser intensa sem que isso seja imediatamente traduzido por excesso.
Talvez a maturidade não seja abrandar até deixarmos de ser quem somos. Talvez seja aprender a conduzir melhor aquilo que sempre nos moveu.
A menina que eu fui não era errada. Era indomada. Era luminosa. Era barulhenta, sim. Era apressada, talvez. Era muito. Mas talvez o mundo precise também de pessoas muito. Pessoas que perguntam, inventam, puxam, abrem caminhos, fazem planos, chamam os outros, escrevem peças para o recreio da vida.
Talvez nem todas as crianças tenham nascido para caber em filas silenciosas.
Algumas nasceram para imaginar a festa. Outras para montar o palco. Outras para escrever o texto. Outras para lembrar que a vida não é apenas cumprir a campainha.
E é por isso que hoje, quando me lembro de mim pequena, não quero dizer-lhe “fala menos”.
Quero dizer-lhe:
“Fala,
“Corre,
“Acende-te, mas não deixes que te convençam de que a tua luz é um problema.”
Talvez seja isso que ando a fazer agora, tantos anos depois.
A devolver-me a mim própria.
A recuperar a voz que fui pousando pelo caminho para não incomodar. A levantar a chama um pouco mais. A lembrar que a sombra pode ser descanso, mas não deve ser destino. A compreender que não nasci para desaparecer em nome da tranquilidade dos outros.
Quero respirar para me habitar melhor, não para me tornar menor. Quero falar devagar quando for preciso, mas não quero perder a alegria das palavras que chegam em bando. Quero estar calma sem estar apagada. Quero estar serena sem estar domesticada.
Porque talvez a pergunta nunca tenha sido: “Como posso ser menos?”
Talvez a pergunta seja outra:
“Como posso arranjar espaço para ser tudo o que sou sem que me convençam que a minha energia é um problema?"
E essa, sim, é uma pergunta que merece uma vida inteira de resposta.
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