Segunda-feira, esse início dos inícios

É segunda-feira outra vez.

Não sei bem como. Ainda agora era sexta, ou talvez sábado, ou talvez aquele "domingo-semana" que inventei para mim, porque trabalho ao sábado e o descanso, quando chega, já vem cansado. Há fins de semana que não são fins de semana. São intervalos. Pequenos parênteses entre duas urgências. Piscamos os olhos e já passaram.

Este passou a voar.

Mal estive com os meus filhos com tempo. Tempo verdadeiro, quero dizer. Daquele que não tem relógio a tossir no pulso, nem roupa por estender, nem mensagens por responder, nem a cabeça a fazer listas enquanto o corpo finge estar presente. Estive, sim. Mas queria ter estado mais. Queria ter tido uma tarde inteira para os ouvir respirar a vida deles, contar as novidades, rir das coisas pequenas, perguntar sem pressa, ficar sentada na cozinha como se o mundo pudesse esperar lá fora com educação.

A vida tem destas crueldades discretas: dá-nos pessoas-casa e depois rouba-nos as tardes para as habitarmos. Temos quem nos faça bem, mas nem sempre temos tempo para estar bem com elas.

E isto assusta-me.

Assusta-me que os dias passem tão depressa. Que os meses se atravessem uns aos outros como comboios atrasados. Que seja quase meio de maio. Como assim, quase meio de maio? Janeiro não foi ontem? Não estava eu ainda a organizar promessas, calendários, esperanças novas, papéis limpos, intenções lavadas? Daqui a pouco passou meio ano. Depois o verão. Depois o outono. Depois alguém diz “já é Natal outra vez” e nós rimo-nos, mas por dentro há qualquer coisa que se dobra.

Tenho quase 53 anos e, às vezes, isto parece-me uma coisa impossível.

Não por vaidade. Não por medo dos números. Os números nunca me assustaram tanto como a velocidade. O que me inquieta não é envelhecer; é não ter tempo de viver tudo o que ainda sinto dentro de mim. Ainda há tanta vida por experimentar. Tanta coisa por aprender. Tanta conversa por ter. Tanta estrada por fazer. Tantos livros por ler. Tantos abraços por demorar. Tantas versões de mim que ainda não consegui conhecer.

Não quero que acabe.

Esta frase parece infantil, mas é talvez a mais adulta de todas. Não quero que acabe. Não quero que a vida me passe pelas mãos como água apressada. Não quero chegar ao fim dos dias apenas com tarefas riscadas e a alma por cumprir. Não quero que o meu corpo esteja sempre em todos os lugares e eu nunca esteja inteira em lado nenhum.

Mas a vida não pára.

Há trabalho. Há horários. Há alunos. Há filhos. Há casa. Há contas. Há mensagens. Há compras. Há compromissos. Há a tese. Há aulas. Há pessoas que precisam. Há pessoas que amo. Há eu, algures no fim da lista, escrita a lápis, sempre adiada para quando houver tempo.

E nunca há tempo.

Gerimos os dias ao milímetro, como se a existência fosse uma folha de Excel com batimentos cardíacos. Cabe tudo, teoricamente. Cabe o trabalho, cabe a família, cabe o jantar, cabe a máquina da roupa, cabe responder ao e-mail, cabe ligar a alguém, cabe preparar a aula, cabe estudar, cabe ser mãe, cabe ser professora, cabe ser amiga, cabe ser eficiente, cabe ser forte, cabe sorrir.

Só não cabe respirar.

E vamos adiando. Adiamos o descanso para o verão. Adiamos a gaveta para julho. Adiamos os exames, as consultas, os livros, a caminhada, a conversa, o café, a praia, a varanda, o silêncio. Adiamos a nós próprias com uma esperança quase infantil: no verão trabalho menos, no verão tenho tempo, no verão ponho tudo em ordem.

O verão tornou-se uma espécie de país prometido.

Mas depois o verão chega com outras urgências, outros cansaços, outras listas. E percebemos que a vida não se resolve numa estação. A vida pede presença agora. Mesmo quando não há tempo. Sobretudo quando não há tempo.

Os filhos crescem. Esta é talvez a maior prova de que o tempo existe. Crescem sem pedir licença. Um dia cabem-nos ao colo; no outro cabem-nos apenas nos intervalos. Têm casas, planos, amores, trabalhos, horários, estradas, preocupações, vidas próprias. E ainda bem. É para isso que os criamos: para irem. Mas ninguém nos explica que o orgulho e a saudade podem viver no mesmo quarto.

Passamos a vê-los nos espaços que sobram. Nos tempos que eles também conseguem libertar. Entre uma coisa e outra. Entre uma semana e outra. Entre a vida deles e a nossa. E nós ficamos ali, mães de braços treinados para acolher, a aprender a não pedir demais, a não prender, a não transformar amor em cobrança.

Mas custa.

Custa que o amor também tenha agenda.

Custa que a família se encontre por marcação.

Custa que a vida nos obrigue a dizer “quando puderes” a pessoas que, durante anos, nos couberam todos os dias dentro de casa.

E depois chega a segunda-feira. Esse início dos inícios. Essa porta que se abre sem perguntar se descansámos. A segunda-feira entra de sapatos calçados, acende as luzes, levanta as persianas e diz: vamos. Há tanto para fazer.

E nós vamos.

Hoje é segunda-feira. Quase meio de maio. Quase meio ano. Quase 53. Quase sempre a correr. Quase sempre a chegar. Quase sempre a tentar.

Mas ainda aqui.

Ainda com vontade. Ainda com fome de vida. Ainda com medo que acabe e, por isso mesmo, com uma ternura maior por tudo o que começa. Talvez seja isso que a idade nos ensina: não que temos menos vida, mas que a vida é uma coisa finita e, por isso, sagrada. Cada manhã é menos banal quando sabemos que não há infinitas manhãs.

Por isso, esta segunda-feira, apesar de tudo, é também um privilégio.

Que eu saiba não o gastar todo em pressa. Que eu consiga guardar um pedacinho para mim. Que consiga ouvir os meus filhos sem olhar para o relógio, ligar àquela amiga com quem não falo há algum tempo e tomar o pequeno-almoço com a minha irmã .... Que consiga trabalhar sem desaparecer dentro do trabalho. Que consiga cumprir sem me abandonar.

Porque a vida não pára, é verdade.

Mas talvez eu possa, de vez em quando, parar - um bocadinho - dentro dela.

Comentários