Regressar à minha sala
Regressar à minha sala é sempre uma espécie de regresso a casa.
Não uma casa de paredes comuns, mas uma casa feita de mesas, cadeiras, livros alinhados, vozes conhecidas e perguntas que chegam antes mesmo de eu pousar a mala. A minha sala é um lugar seguro. Talvez porque ali sei quem sou. Talvez porque há lugares que nos devolvem a nós mesmos sem grandes expectativas.
Durante a tarde chegarão os meus.
Chegarão com o barulho próprio de quem ainda traz vida inteira por gastar. Uns perguntarão: “Como foram esses três dias, storinha?” Outros dirão: “Professora, conte-nos tudo.” E os mais chegados talvez me abracem como se não nos víssemos há meses, quando afinal foram só alguns dias.
Haverá saudades. Haverá amizade sem julgamento. Essa amizade simples, limpa, quase adolescente, que não pergunta demais, mas percebe. Que não sabe sempre o que dizer, mas fica perto. Que não precisa de grandes discursos para nos lembrar que pertencemos ali.
Durante muito tempo, achei que a Matemática era apenas números, fórmulas, equações, testes, problemas para resolver. Hoje sei que é também uma forma de regressar à ordem quando a vida se desarruma. Há qualquer coisa de profundamente reconfortante numa conta que tem caminho, numa expressão que se simplifica, numa incógnita que, com paciência, acaba por se revelar.
Talvez seja isso que me acalma.
A Matemática ensina-nos que nem tudo se resolve à primeira. Que há problemas que exigem várias tentativas. Que errar um passo não invalida o percurso inteiro. Que, às vezes, é preciso voltar atrás, olhar de novo, mudar de estratégia, tentar por outro lado. E talvez a vida seja também isto: um exercício comprido, cheio de parênteses, sinais trocados e incógnitas que só entendemos mais tarde.
Há imenso trabalho acumulado.
Testes. Rotinas. Correções. Planificações. Aquela lista invisível que cresce mesmo quando não estamos a olhar para ela. Mas, ainda assim, regressar aqui é bom. Porque no meio do trabalho há presença. No meio da exigência há encontro. No meio da matéria há gente.
E ensinar nunca foi só explicar conteúdos.
Ensinar é também escutar. É perguntar antes de responder. É perceber que cada aluno traz consigo uma história, uma inquietação, uma pressa, um medo, uma forma própria de aprender e de se esconder. Ensinar é entrar na sala sabendo que não somos donos do saber, somos apenas companheiros de caminho. Levamos alguma luz, sim, mas também recebemos muita.
Há dias em que sou eu que ensino Matemática.
E há dias em que são eles que me ensinam humanidade.
Ensinam-me que o afeto ainda cabe na escola. Que uma pergunta simples pode ser colo. Que um abraço inesperado pode arrumar uma parte da alma. Que há salas de aula que são mais do que salas: são pequenos lugares de pertença onde, entre equações e cadernos abertos, alguém nos recorda que continuamos inteiros.
Encontrar a sala arrumada, os livros alinhados, os objetos no lugar certo, traz sempre algum conforto a esta minha mente inquieta.
Porque quem tem PHDA sabe: a cabeça anda muitas vezes a correr maratonas sem pedir licença, e a arrumação, às vezes, é a tentativa carinhosa de pôr o mundo exterior em fila, já que o interior insiste em dançar samba em cima da mesa.
E eu rio-me disto.
Porque também é preciso rir de nós. Das nossas manias. Dos nossos hiperfocos. Da necessidade quase poética de alinhar livros como quem tenta convencer a vida a portar-se bem. Talvez a minha sala arrumada seja isso: uma pequena trégua. Um lugar onde, por momentos, tudo parece possível de organizar.
Regressar à Matemática é regressar a uma linguagem onde o caos pode ser pensado.
Onde o problema não é inimigo, é convite. Onde a dúvida não é fraqueza, é ponto de partida. Onde cada pergunta abre caminho para outra pergunta, e aprender não é decorar respostas, mas ganhar coragem para procurar sentidos.
Talvez por isso eu goste tanto deste lugar.
Porque aqui há matéria, sim. Há trabalho. Há exigência. Há dias cansativos. Mas há também olhos que brilham quando finalmente entendem. Há aquele silêncio raro de quem está a pensar. Há a alegria pequena de uma resolução certa. Há o orgulho tímido de quem dizia “não consigo” e, de repente, consegue.
Hoje regresso à minha sala e aos meus alunos. Aos meus pequenos grandes companheiros de todos os dias. Aqueles que me desarrumam a paciência e me arrumam o coração. Aqueles que me cansam e me salvam, às vezes no mesmo minuto. Aqueles que me fazem lembrar que educar é sempre um ato de esperança.
Voltar à minha sala é voltar a um lugar onde ainda acredito.
Na escola.
Na ternura.
Na pergunta.
No erro.
No recomeço.
Na possibilidade de todos aprendermos alguma coisa, mesmo quando a vida lá fora parece demasiado difícil de resolver.
Hoje volto.
Com trabalho acumulado, sim. Com a cabeça inquieta, claro. Com testes à espera, rotinas para retomar e livros alinhados como quem prepara um pequeno altar ao equilíbrio.
Mas volto também com a certeza de que há lugares que nos recebem sem julgamento.
E a minha sala é um desses lugares.
Ali, entre a Matemática, os abraços, as perguntas e a desordem bonita dos dias, talvez eu volte a encontrar o meu eixo.
Porque há regressos que não são apenas regressos.
São formas discretas de recomeçar.
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