Parentalidade positiva ou a delicada arte de não desistir de educar?

Há palavras que nascem boas e acabam gastas de tanto mau uso. “Parentalidade positiva” é uma delas.

Em princípio, a ideia é luminosa: educar sem humilhar, corrigir sem esmagar, orientar sem ferir, escutar sem ridicularizar. Durante demasiado tempo confundiu-se autoridade com medo, disciplina com castigo e respeito com obediência muda. A parentalidade positiva veio lembrar-nos algo essencial: a criança é uma pessoa em desenvolvimento, não uma propriedade dos adultos; precisa de vínculo, segurança, linguagem, escuta, previsibilidade e cuidado.

Até aqui, tudo bem. Aliás, tudo muito bem.

O problema começa quando a parentalidade positiva deixa de ser uma ética do cuidado e passa a ser uma desculpa elegante para a desistência do adulto. Quando o “não quero traumatizar o meu filho” se transforma em “não consigo dizer não”. Quando validar emoções passa a significar aceitar todos os comportamentos. Quando escutar a criança se confunde com negociar tudo. Quando a criança deixa de ser ouvida e passa a governar a casa inteira.

Então, já não estamos a falar de parentalidade positiva. Estamos a falar de desresponsabilização com vocabulário bonito.

A parentalidade positiva não é deixar a criança decidir tudo. Não é perguntar a um filho pequeno se quer dormir, se quer tomar banho, se quer ir à escola, se quer desligar o tablet ou se quer respeitar o tempo, o corpo e o descanso dos outros. Há escolhas que podem e devem ser dadas à criança. Pode escolher entre a camisola azul e a verde. Pode escolher se quer a maçã cortada ou inteira. Pode dizer que está zangada. Pode não gostar da regra.

Mas não pode bater. Não pode humilhar. Não pode decidir se cumpre ou não o que é necessário. Não pode viver como se os outros fossem figurantes da sua vontade.

Esta distinção parece simples, mas é nela que muitas famílias se perdem.

Diana Baumrind, referência clássica no estudo dos estilos parentais, mostrou a importância de um equilíbrio entre afeto e exigência. O estilo mais associado a um desenvolvimento saudável não é o autoritário, assente no medo, nem o permissivo, assente na ausência de limites. É o estilo autoritativo: caloroso, responsivo, firme e consistente. Ou seja, a criança precisa de amor, mas também precisa de estrutura.

O autoritarismo diz: “Fazes porque eu mando.”
A permissividade diz: “Faz o que quiseres.”
A parentalidade verdadeiramente positiva diz: “Eu compreendo o que sentes, mas continuo responsável por te ajudar a crescer.”

E crescer implica frustração.

Talvez esta seja uma das palavras mais expulsas da educação contemporânea: frustração. Temos medo dela como se fosse uma doença. Queremos poupar os filhos ao desconforto, ao tédio, à espera, ao erro, à perda, à contrariedade. Queremos filhos felizes, mas esquecemo-nos de que ninguém se torna emocionalmente forte se nunca tiver atravessado um pequeno “não”.

Donald Winnicott falava do cuidador suficientemente bom. Não é o cuidador perfeito, que antecipa todos os desejos e elimina todas as dificuldades. É aquele que cuida, acolhe e sustenta, mas que também permite pequenas frustrações suportáveis, através das quais a criança aprende que o mundo não acaba quando a sua vontade não é imediatamente satisfeita.

Há uma frase que me parece resumir isto: amar uma criança não é impedir que ela caia; é garantir que ela não cai sozinha.

Mas hoje há uma tentação enorme de eliminar todos os tombos. Há pais que chegam antes da dificuldade, antes da consequência, antes da pergunta, antes da falha. Explicam ao professor, justificam ao treinador, desculpam ao avô, escrevem pelo filho, decidem pelo filho e, paradoxalmente, dizem que estão a promover autonomia.

Mas não há autonomia sem responsabilidade. Não há autoestima verdadeira sem confronto com a realidade. Não há liberdade possível quando nunca se aprendeu que os outros também existem.

A criança que pode tudo não se sente livre. Muitas vezes, sente-se desamparada.

Porque os limites, quando são justos, consistentes e explicados, não são muros contra a criança. São paredes de casa. São aquilo que permite saber onde começa o mundo e onde acaba a vontade. São uma forma de dizer: “Eu estou aqui. Tu ainda não tens de carregar sozinho o peso de decidir tudo.”

John Bowlby, na teoria da vinculação, mostrou a importância de uma base segura. A criança precisa de adultos disponíveis, sensíveis e confiáveis para explorar o mundo. Mas uma base segura não é uma base permissiva. É precisamente porque existe alguém maior, mais estável e mais capaz de regular a tempestade que a criança pode aprender a crescer.

Respeitar uma criança é ouvi-la.
Não é obedecer-lhe.

Respeitar uma criança é reconhecer a sua emoção.
Não é legitimar qualquer comportamento.

Respeitar uma criança é dar-lhe voz.
Não é entregar-lhe o volante.

Há casas onde já não há adultos; há apenas gestores de crises infantis. Tudo é negociado, tudo é evitado, tudo é suavizado. A hora de dormir torna-se uma assembleia. A refeição, um contrato. O ecrã, uma guerra diplomática. O “não” transforma-se numa tragédia familiar, porque ninguém ensinou antes que o não também pode ser uma palavra de amor.

E pode.

Um “não” dito com calma, rigor e ternura pode ser profundamente amoroso. Pode dizer: “Não te deixo bater.” “Não te deixo desistir de tudo ao primeiro desconforto.” “Não te deixo tratar mal quem cuida de ti.” “Não te deixo crescer convencido de que todos devem reorganizar a vida em torno do teu capricho.”

Disciplina, no seu sentido mais bonito, não é punição. É aprendizagem. É caminho. É ensinar a viver com os outros.

Foi assim que procurei educar os meus filhos. Não com perfeição, porque essa palavra não combina com maternidade. Eduquei-os com amor, com erros, com pedidos de desculpa, com colo, com cansaço, com regras, com conversas longas, com limites e com muitos “nãos” que me custaram dizer. Mas disse-os. Porque há momentos em que amar é não ceder. Há momentos em que amar é sustentar a regra mesmo quando o coração nos pede atalhos.

E é também assim que procuro orientar os meus alunos — esses filhos do meu coração que os pais colocam nas minhas mãos para aprender Matemática e, sem saberem, também para crescer. Às vezes, é preciso firmeza. Às vezes, é preciso um “não” dito com rigor. Não para humilhar, não para marcar poder, não para vencer uma criança ou um jovem, mas para lhe mostrar que há caminhos, regras, esforço, responsabilidade e consequências.

Mas esse “não” nunca deve fechar a porta.

Tem de haver espaço para o diálogo. Para a escuta ativa. Para perceber o que está por trás da resistência, da distração, da birra, da desistência, da insegurança. Muitas vezes, um aluno que diz “não consigo” está a dizer “tenho medo de falhar”. Muitas vezes, um aluno que parece desafiar está a pedir que alguém não desista dele. Muitas vezes, uma criança que testa limites está apenas a confirmar se o adulto continua lá.

E o adulto tem de continuar.

Com firmeza, sim. Mas também com presença. Com exigência, sim. Mas também com humanidade. Com regras, sim. Mas também com escuta.

A teoria da autodeterminação, desenvolvida por Deci e Ryan, ajuda-nos a compreender esta diferença. Apoiar a autonomia não significa abandonar a criança às suas próprias decisões. Significa ajudá-la a aprender a decidir. Os contextos mais saudáveis combinam autonomia, vínculo e estrutura. A criança precisa de ser respeitada, mas também precisa de ser orientada.

É diferente dizer: “Decide tudo sozinho.”
E dizer: “Vou ajudar-te a aprender a decidir.”

É diferente dizer: “Faz como quiseres.”
E dizer: “Vamos pensar nas consequências.”

É diferente dizer: “A tua vontade manda.”
E dizer: “A tua vontade importa, mas não é a única coisa que importa.”

Uma criança que nunca espera não aprende a esperar. Uma criança que nunca perde não aprende a perder. Uma criança que nunca repara o erro não aprende responsabilidade. Uma criança que nunca ouve “não” pode crescer convencida de que o amor dos outros se mede pela sua disponibilidade para ceder.

E depois chega à escola, aos grupos, ao trabalho, às relações, à vida. E a vida, essa entidade pouco interessada nas nossas pedagogias domésticas, frustra, adia, contraria, exige, recusa. Não por crueldade. Mas porque a realidade é feita de outros desejos, outros corpos, outros tempos e outros limites.

Educar é preparar para essa realidade sem destruir a ternura.

Não se trata de voltar ao medo, à palmada, à vergonha, ao “porque sim”, à criança calada à mesa dos adultos. Nada disso. Muitas infâncias foram obedientes porque estavam assustadas, não porque estavam bem orientadas. Mas também não podemos substituir o medo pela demissão.

Entre a palmada e o “faz tudo o que quiseres” há um território imenso, inteligente e exigente: o da autoridade amorosa.

A autoridade amorosa não grita para existir. Não humilha para ensinar. Não ameaça para ser levada a sério. Mas também não desaparece quando a criança protesta. Não pede desculpa por haver regras. Não transforma cada limite numa culpa. Não tem medo de dizer: “Eu sei que estás zangado. Eu aceito a tua zanga. Mas a regra mantém-se.”

Talvez esta seja uma das frases mais importantes da educação:

“Eu aceito a tua emoção, mas não aceito qualquer comportamento.”

É aqui que se distingue parentalidade positiva de permissividade. A emoção merece acolhimento; o comportamento precisa de orientação. Uma criança pode estar furiosa. Não pode destruir. Pode estar triste. Não pode manipular todos à sua volta. Pode estar frustrada. Não pode insultar. Pode não querer. Mas há coisas que precisam de ser feitas.

E aqui regressamos à pergunta inicial: parentalidade positiva ou desresponsabilização?

Depende.

Se for escuta, vínculo, respeito, limites, consistência e reparação, é parentalidade positiva.
Se for medo de contrariar, ausência de regras, desculpabilização permanente e inversão dos papéis familiares, é desresponsabilização.

Se for ajudar a criança a nomear o que sente, é educação emocional.
Se for usar a emoção da criança como motivo para suspender todas as responsabilidades, é confusão.

Se for dar voz, é respeito.
Se for entregar o comando, é abandono.

Há uma forma moderna de negligência que não parece negligência porque vem cheia de brinquedos, escolhas, explicações e atividades. Mas falta-lhe o essencial: presença adulta estruturante. Há crianças muito estimuladas, muito ouvidas, muito fotografadas, muito ocupadas — e pouco orientadas. Crianças com tudo e sem eixo. Crianças amadas, sim, mas pouco educadas para a espera, para a reparação, para a responsabilidade e para a existência dos outros.

Também é verdade que os pais estão cansados. Vivemos num tempo que exige pais perfeitos e, ao mesmo tempo, lhes retira comunidade, tempo, descanso e confiança. Pais exaustos tornam-se mais vulneráveis aos extremos: ou endurecem demais, ou cedem demais. Ou gritam, ou desistem. Ou controlam, ou deixam andar.

A parentalidade positiva, quando bem compreendida, podia ser uma terceira via: firmeza sem violência, ternura sem permissividade.

Talvez devêssemos falar menos de pais perfeitos e mais de pais suficientemente presentes.

Pais que erram e reparam.
Pais que se cansam e voltam.
Pais que pedem desculpa sem abdicar do seu lugar.
Pais que amam sem transformar o amor numa autorização ilimitada.
Pais que sabem que educar é uma forma lenta de esperança.

Porque uma criança não precisa de crescer no medo. Mas também não precisa de crescer no trono.

Precisa de crescer nos braços de alguém que a ame o suficiente para a acolher quando chora e a contrariar quando precisa. Alguém que lhe diga “és importante” sem lhe dizer “és o centro de tudo”. Alguém que saiba que o amor, quando é maduro, não se limita a proteger da dor: ensina a atravessá-la.

No fim, talvez a verdadeira parentalidade positiva seja isto: não ferir a criança em nome da autoridade, mas também não abandonar a autoridade em nome da criança.

É dizer:

“Eu vejo-te.”
“Eu escuto-te.”
“Eu respeito-te.”
“E exatamente por te amar, não vou desistir de te educar.”

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