O que meio século nos obriga a desaprender

Chega uma idade em que já não fazemos anos: fazemos inventário.

Meio século não é apenas uma data. É uma casa cheia de gavetas. Algumas arrumadas, outras nem por isso. Há gavetas com fotografias antigas, nomes que já não dizemos, sonhos que mudaram de forma, medos que perderam força e algumas verdades que, afinal, não eram verdades — eram apenas frases repetidas por quem também andava a tentar viver.

Durante muito tempo, disseram-nos que crescer era aprender.

Mas talvez crescer seja, sobretudo, desaprender.

Desaprender a pedir desculpa por sentir muito. Desaprender a caber em lugares pequenos só para não incomodar. Desaprender a achar que ser forte é não cair, que ser boa é dizer sempre sim, que ser amada é ser útil, discreta, sem problemas e sempre disponível.

Aos cinquenta, a vida começa a tirar-nos os enfeites.

E isso também liberta.

Liberta porque deixamos de querer agradar a toda a gente, porque finalmente percebemos que há pessoas que só ficam satisfeitas quando deixamos de ser nós e que essas, não nos interessam. Aos cinquenta deixamos de querer explicar demasiado, porque nem todos querem ou serão capazes de compreender. Deixamos de correr atrás de afetos que não nos merecem. O amor, a amizade, a ternura, quando são verdadeiros, não exigem perseguição. Chegam. Ficam. Cuidam.

Meio século ensina-nos que o tempo é uma matéria delicada.

Já não o podemos gastar em qualquer coisa. Nem em qualquer pessoa. Há conversas que já não merecem a nossa paz. Há dramas que já não nos pertencem. Há expectativas que precisamos pousar no chão, como malas pesadas que carregámos durante anos sem saber porquê.

Desaprendemos também a vergonha da imperfeição.

A casa nem sempre está arrumada. O coração também não. Há dias em que somos corajosas e dias em que somos apenas humanas. Há dias em que sabemos exatamente quem somos e outros em que voltamos a procurar-nos no meio da confusão. E está tudo bem. A vida não é uma linha reta. Talvez por isso eu goste tanto da Matemática: até as curvas têm sentido quando aprendemos a lê-las.

Aos cinquenta, começa-se a perceber que a felicidade não mora nas grandes explicações.

Mora numa manhã de sol. Num café com amigas. Num aluno que finalmente entende. Num filho que sorri. Numa mensagem inesperada. Numa mesa onde cabemos. Numa música antiga. Na coragem de continuar a estudar. Na fé que entra pela janela sem pedir licença.

Desaprender é difícil. Porque algumas coisas colaram-se a nós como segunda pele: a culpa, o medo, a necessidade de sermos sempre fortes, sempre certas, sempre capazes. Mas há uma beleza imensa em descobrir que ainda podemos mudar de pele. Que ainda podemos escolher melhor. Que ainda podemos dizer: isto já não me serve.

Talvez meio século nos obrigue a desaprender para podermos voltar ao essencial.

À amizade sem cálculo nem cobranças, à fé sem medo, à alegria sem autorização e à mulher que fomos deixando para depois.

E talvez a maior aprendizagem seja esta: não somos o que nos aconteceu, mas o que fizemos de nós com o que nos aconteceu.

Com as perdas, fizemos chão, com as falhas, fizemos caminho, com o cansaço, fizemos resistência e com o amor, fizemos casa.

Meio século não é o princípio do fim.

É o princípio de uma lucidez mais terna.

A idade em que finalmente começamos a desaprender tudo o que nos afastava de nós e de quem gostamos tanto de ser.

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