De Natal para Alfândega da Fé; de Alfândega da Fé para a vida
Alfândega da Fé não me trouxe apenas conhecimento académico.
Trouxe-me reencontros com amigas antigas, abraços que já tinham história, conversas retomadas no ponto exato onde a vida as tinha deixado em suspenso. Trouxe-me também os meus professores, essa espécie rara de pessoas que nos ajudam a pensar melhor e, por isso mesmo, nos ajudam a ser um pouco mais inteiros.
Mas Alfândega da Fé trouxe-me ainda outra coisa.
Trouxe-me o Manoel e a Natália.
E há encontros que parecem não precisar de apresentação demorada. Acontecem como se já viessem com caminho feito por dentro. Chegam, sentam-se ao nosso lado, riem connosco, partilham uma mesa, uma conversa, uma ideia, uma inquietação, e de repente percebemos que aquela pessoa já entrou. Não pela porta principal, com cerimónia, mas por uma dessas janelas discretas por onde entram as coisas boas.
Vieram do Brasil, de Natal, trazendo no corpo esse som de sol que algumas pessoas têm. Há gargalhadas que não são apenas gargalhadas. São paisagens. A gargalhada deles tem qualquer coisa de mar, de luz, de comida boa, de fim de tarde quente, de generosidade sem pressa. Uma gargalhada com sotaque de Brasil e alegria de quem sabe estar.
Em pouco tempo, tornaram-se pessoas queridas.
E isto espanta-me sempre.
Passamos anos a conhecer pessoas sem que elas nos toquem verdadeiramente, e depois há alguém que chega durante poucos dias e nos deixa uma espécie de morada no coração. Talvez a amizade não obedeça aos calendários. Talvez alguns laços não precisem de tempo longo; precisam apenas de verdade. Há encontros breves que são mais fundos do que convivências demoradas. Há pessoas que chegam tarde e parecem ter estado sempre à espera de nos encontrar.
Com o Manoel e a Natália foi assim.
Havia pontos de contacto por todo o lado. A paixão por estudar e aprender. A vontade de comunicar, de compreender, de partilhar experiências. O gosto por viajar, por rir, por conversar, por comer bem, por procurar sentido nas coisas. A necessidade quase teimosa de continuar a crescer. Talvez seja isso que aproxima algumas pessoas: não pensarem exatamente igual, mas caminharem com a mesma fome de mundo.
O Manoel tem uma presença que protege.
Não uma proteção que prende ou que se impõe. É uma proteção tranquila, quase silenciosa, feita de atenção, cuidado e humor. Há nele uma generosidade que não precisa de se anunciar. Está ali. No gesto, na palavra certa, na disponibilidade, na forma como observa o outro antes de responder. O Manoel tem uma inteligência emocional bonita, dessas que não se aprendem só nos livros, porque nascem também da experiência, da escuta e da capacidade de olhar para os outros com humanidade.
E tem sentido de humor.
Um humor bom, inteligente, luminoso. O tipo de humor que não fere, aproxima. Que não diminui ninguém, antes abre espaço. Há pessoas que usam o humor como escudo. Outras usam-no como ponte. O Manoel é desses que constroem pontes. Talvez por isso seja tão fácil estar com ele. Porque ao lado dele não sentimos necessidade de representar. Podemos simplesmente estar.
A Natália tem uma beleza que não é apenas a que se vê.
É bonita, sim. Graciosa, luminosa, com uma delicadeza que não é fragilidade. Mas há nela uma beleza mais funda: a de quem procura conhecer-se. A de quem se observa, se interroga, se reconstrói. A de quem não tem medo de olhar para dentro, mesmo quando lá dentro há perguntas difíceis. Reconheci nela qualquer coisa de mim: essa vontade de equilíbrio, essa procura de sentido, essa autoanálise constante, às vezes cansativa, mas tão necessária para quem quer crescer sem perder a ternura.
A Natália tem o dom da reciprocidade.
E a reciprocidade é uma das formas mais bonitas da amizade. É saber colocar-se no lugar do outro. É não ocupar sempre o centro. É escutar com atenção verdadeira. É devolver cuidado. É perceber que as relações não vivem apenas da presença, mas da qualidade dessa presença. A Natália tem essa capacidade rara de estar com o outro sem o invadir, de compreender sem julgar, de cuidar sem fazer ruído.
Os dois acrescentaram-me.
E isto é talvez o que de mais bonito se pode dizer de alguém: acrescentou-me. Não me ocupou apenas tempo. Não foi apenas companhia. Não foi apenas simpatia social, daquelas que se trocam em eventos e depois se esquecem no primeiro regresso a casa. Acrescentaram-me alegria, pensamento, afeto, riso, conversa, leveza. Aumentaram a minha rede de afetos.
E gosto desta ideia de rede.
Talvez por vir da Matemática, penso muitas vezes nas pessoas como pontos que se ligam. Há pontos que ficam isolados. Há ligações frágeis, quase linhas a lápis. Há outras que, sem sabermos bem como, se tornam firmes. A vida vai desenhando uma geometria afetiva feita de distâncias, encontros, aproximações e permanências. E, às vezes, num lugar improvável, aparece um novo segmento de luz a ligar o nosso coração ao coração de alguém.
Alfândega da Fé fez isso.
Ligou-me ao Manoel e à Natália.
E não deixa de ser bonito que tenha acontecido num lugar com “Fé” no nome. Porque a amizade também exige fé. Fé no outro. Fé na possibilidade de sermos acolhidos. Fé na beleza dos encontros que não controlamos. Fé nessa misteriosa matemática da vida que junta pessoas de países diferentes, histórias diferentes, caminhos diferentes, e de repente descobre uma equação simples: estávamos bem juntos.
Paulo Freire lembrava-nos que ninguém se faz sozinho. Somos feitos nos encontros, nas relações, nas palavras partilhadas, nos gestos que nos humanizam. Aprender nunca é apenas acumular conhecimento; é também deixar-se tocar pelo outro, reconhecer nele uma presença, uma história, uma humanidade. Talvez por isso estes dias tenham sido tão bonitos. Porque não trouxeram apenas saber. Trouxeram vínculo.
E os vínculos bons são uma forma de conhecimento.
Conhecemos melhor o mundo quando conhecemos pessoas boas. Conhecemos melhor a nós próprios quando alguém nos devolve uma versão mais luminosa de quem somos. Há amizades que nos ensinam sem darem aulas. Ensinam pela presença, pela generosidade, pela gargalhada, pela escuta, pelo cuidado. O Manoel e a Natália ensinaram-me isso outra vez: que ainda há pessoas que chegam com verdade.
Sou grata.
Grata à vida, que às vezes se distrai das suas durezas e nos oferece presentes inesperados. Grata a Alfândega da Fé, que me deu mais do que eu fui procurar. Grata por estes dois amigos novos que vieram de Natal e trouxeram consigo um pedaço de Brasil, de sol, de riso e de ternura.
Há pessoas que passam por nós como visita.
Outras ficam como casa.
O Manoel e a Natália ficaram nesse lugar bonito onde guardo as pessoas que me fazem bem. Pessoas que não precisam de muito tempo para se tornarem importantes. Pessoas que nos fazem acreditar que a amizade continua a ser uma das formas mais simples e mais extraordinárias de salvação.
E eu, que tantas vezes penso demais, analiso demais, sinto demais, agradeço apenas.
Porque há encontros que não se explicam.
Recebem-se. Guardam-se. Cuidam-se.
E, quando a vida é generosa ao ponto de nos trazer duas pessoas tão lindas, o mínimo que podemos fazer é abrir espaço no coração e dizer:
ainda bem que vieram.

Aprendi com um amigo filósofo, que por acaso divide consigo a mesma data de aniversário, uma lembrança inspirada em Hannah Arendt: existem pessoas que apenas passam pela vida e existem aquelas que nos atravessam para sempre. Você é dessas raras pessoas que deixam marcas bonitas no tempo.
ResponderEliminarSeja pela beleza imponente, pela maestria com as palavras ou pela singeleza leve e despretensiosa da sua amizade, há encontros que parecem carregar algo de destino. Talvez seja isso que os portugueses chamam de saudade antes mesmo da distância existir, e que nós brasileiros traduzimos como afeto que faz morada.
É por amizades como a sua, que não pedem licença para existir e simplesmente acontecem, que ainda acredito na delicadeza da vida e nas suas infinitas possibilidades. Que a gente siga se encontrando, nesta vida e nas outras, sempre com essa felicidade serena de quem reconhece no outro um porto seguro de alma.
Com carinho,
Romão
Romão querido,
Eliminarli as suas palavras com o coração demorado nelas.
Há comentários que não se respondem logo, porque primeiro precisam de ser recebidos, guardados e agradecidos por dentro. O seu foi assim. Tocou-me profundamente pela delicadeza, pela beleza das imagens e pela generosidade com que me olhou.
Gosto muito dessa ideia, inspirada em Hannah Arendt, de que há pessoas que não apenas passam: atravessam-nos. Talvez seja mesmo isso que acontece quando a amizade nasce sem esforço, sem explicação excessiva, como se já trouxesse uma espécie de reconhecimento anterior. Há encontros que parecem breves no tempo, mas largos no significado.
Fico muito grata pelas suas palavras, pela sua amizade leve e bonita, pela presença que acrescenta afeto, pensamento e alegria aos meus dias. Se há pessoas que fazem morada, há também palavras que ficam. E as suas ficaram.
Que sigamos, sim, encontrando-nos nesta vida — e, quem sabe, nas outras — com essa ternura serena de quem reconhece no outro um lugar seguro de alma.
Com muito carinho e gratidão,
Paula