Quero ser uma janela

O meu pai pediu-me muitas vezes que estudasse sempre.

Não era um pedido com solenidade. Era daqueles conselhos que os pais deixam cair na vida dos filhos como quem planta uma árvore e espera que, um dia, ela dê sombra. Estuda. Nunca pares de estudar. Aprende. Aprende sempre. Porque aquilo que aprendes, aquilo que constróis por ti, aquilo que fazes crescer dentro de ti, ninguém te tira.

E talvez esta tenha sido uma das maiores heranças que ele me deixou.

Não uma herança guardada em gavetas, contas ou papéis. Uma herança mais funda. A certeza de que o conhecimento é uma forma de liberdade. Uma espécie de casa interior. Podemos perder coisas, lugares, pessoas, certezas, forças, juventude, tempo. Mas aquilo que aprendemos verdadeiramente fica connosco. Passa a fazer parte da forma como olhamos o mundo, como pensamos, como escolhemos, como nos levantamos depois das quedas.

Estudar depois dos 50 tem uma beleza estranha.

Talvez porque já não se estuda apenas para chegar a algum lado. Estuda-se também para permanecer viva por dentro. Para não deixar que a cabeça adormeça. Para continuar a fazer perguntas. Para provar a nós próprias que ainda há mundo, ainda há caminho, ainda há espanto.

Tenho quase 53 anos e continuo a querer aprender muito sobre tudo.

Demasiado, talvez.

Queria ler mais livros do que a vida me permite. Queria entender melhor o mundo, a educação, as pessoas, a fé, a ciência, a tecnologia, a infância, a velhice, a dor, a alegria, os números, as palavras, os silêncios. Queria ter tempo para todos os autores, todas as perguntas, todas as inquietações. Queria dias maiores, noites menos cansadas, manhãs mais lentas, verões mais compridos. Queria que a vida esticasse um pouco, só para caber mais conhecimento.

Mas a vida não chega para tanto.

E esta consciência da finitude, que antes parecia uma ideia distante, começa a aproximar-se com uma delicadeza quase cruel. Não é medo da idade. É a consciência de que o tempo é matéria limitada. Que não há infinitos janeiros, infinitos verões, infinitas oportunidades de começar. E, talvez por isso, aprender se torne ainda mais urgente. Não urgente como pressa. Urgente como amor.

Aprender é dizer à vida: ainda estou aqui.

Ainda quero compreender.
Ainda quero crescer.
Ainda quero mudar de opinião.
Ainda quero ser surpreendida.
Ainda quero começar outra vez.

Há quem ache que, depois de certa idade, devemos sossegar. Como se a curiosidade tivesse prazo de validade. Como se aprender fosse coisa de jovens. Como se a maturidade fosse uma sala fechada onde nos sentamos a repetir o que já sabemos.

Eu não quero ser essa sala.

Quero ser uma janela.

Quero continuar a estudar, a investigar, a fazer perguntas difíceis, a escrever, a ler, a sublinhar frases, a encher cadernos, a discutir ideias, a duvidar, a procurar. Quero continuar a sentir aquele entusiasmo quase infantil diante de uma coisa nova que finalmente começa a fazer sentido.

E quero ensinar Matemática até ser muito velha.

Até a cabeça me permitir.

E espero que permita durante muitos e bons anos.

Quero continuar a entrar numa sala, olhar para os meus alunos e acreditar que ainda posso acender alguma coisa. Quero continuar a explicar uma equação como quem mostra uma porta. Quero continuar a dizer-lhes que errar faz parte, que tentar de novo importa, que uma incógnita não é uma ameaça, é apenas aquilo que ainda não descobrimos.

Talvez eu ensine Matemática porque a vida inteira me parece cheia de problemas por resolver.

Mas talvez continue a estudar porque sei que nem tudo se resolve com fórmulas. Há coisas que a Matemática ensina sem dizer diretamente: rigor, paciência, método, beleza, humildade perante o erro, respeito pelos limites, confiança no processo. E há outras que só a vida ensina: ternura, perda, coragem, gratidão, recomeço.

Estudar depois dos 50 é também reconciliar-me comigo.

Com o que não fiz antes. Com o tempo que não tive. Com as oportunidades que chegaram tarde. Com os caminhos interrompidos. Com as versões de mim que ficaram à espera. É olhar para trás sem me castigar demasiado e dizer: ainda vais a tempo. Não para fazer tudo. Não para recuperar tudo. Mas para continuar.

E continuar é uma palavra bonita.

Continuar não é fingir que não cansamos. Não é negar as dores, as noites mal dormidas, a cabeça cheia, a vida aos milímetros, a tese, o trabalho, a casa, os dias que não chegam. Continuar é, apesar disso, escolher mais uma página. Mais uma aula. Mais uma pergunta. Mais um passo.

Talvez o meu pai soubesse isto melhor do que eu.

Talvez, quando me dizia para estudar sempre, estivesse a dizer-me: constrói dentro de ti um lugar onde possas regressar. Um lugar que ninguém te roube. Um lugar feito de pensamento, autonomia e dignidade. Um lugar onde sejas tua.

Hoje percebo.

Aquilo que aprendemos torna-nos menos pobres diante da vida. Não porque nos dê todas as respostas, mas porque nos ensina a perguntar melhor. E quem pergunta melhor vive mais acordado.

Ainda há tanto para aprender.

E talvez seja isso que me mantém jovem, apesar dos números. Não a ausência de rugas, não a pressa, não a ilusão de voltar atrás. Mas esta fome de futuro. Esta vontade de continuar a abrir livros, portas, ideias, caminhos. Esta teimosia de acreditar que a idade não é fronteira, é apenas mais uma coordenada no mapa.

Tenho quase 53 anos.

E ainda quero mundo.

Ainda quero livros.

Ainda quero perguntas.

Ainda quero futuro.

E, enquanto a cabeça me permitir, hei de continuar a estudar. Porque foi isso que o meu pai me pediu. Porque foi isso que a vida me ensinou. Porque aquilo que aprendemos, aquilo que construímos, aquilo que fazemos crescer em nós, ninguém nos pode tirar.

E porque, no fundo, estudar é uma forma muito bonita de continuar viva.

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