A vida também tem incógnitas
A vida também tem incógnitas.
Talvez seja por isso que nunca conseguimos resolvê-la por completo. Podemos estudar, planear, organizar, prever, fazer listas, desenhar caminhos, calcular riscos, medir possibilidades. Podemos até convencer-nos, durante algum tempo, de que temos tudo sob controlo. Mas depois a vida chega, muda uma variável, troca-nos o sinal, apaga uma linha do quadro e obriga-nos a recomeçar a conta.
A vida raramente se deixa resolver à primeira.
Há problemas que parecem simples até começarmos a olhar para eles com atenção. Há decisões que julgávamos certas e que, mais tarde, revelam outros lados. Há caminhos que pareciam desvios e afinal eram passagem. Há perdas que nos desmontam. Há encontros que nos reorganizam. Há silêncios que dizem mais do que respostas inteiras.
E há perguntas que ficam.
Quem sou eu agora?
O que faço com aquilo que me aconteceu?
Como se continua depois de uma dor?
Como se escolhe quando todos os caminhos têm qualquer coisa a perder?
Como se sabe se estamos a viver ou apenas a cumprir dias?
Talvez viver seja aceitar que nem tudo tem resultado exato.
Na Matemática, uma incógnita não é um erro. É apenas aquilo que ainda não conhecemos. Aquilo que procuramos. Aquilo que exige método, paciência, tentativa, atenção. A vida, nesse sentido, está cheia de incógnitas: algumas resolvem-se com o tempo; outras mudam de forma; outras acompanham-nos sempre, como perguntas antigas sentadas no fundo da alma.
Passamos grande parte da existência a tentar encontrar valores para essas incógnitas. Procuramos sentido, pertença, equilíbrio, paz. Procuramos uma forma de sermos inteiros sem termos de ser perfeitos. Procuramos a medida certa entre ficar e partir, entre falar e calar, entre insistir e largar, entre controlar e confiar.
Mas nem sempre há fórmula.
Há dias em que a vida se parece com uma equação impossível, cheia de parênteses por fechar. Tentamos simplificar, reduzir o ruído, colocar em evidência o essencial. Mas o essencial, tantas vezes, aparece misturado com o medo, a pressa, a culpa, o cansaço, a esperança e a memória.
E então percebemos que viver não é resolver tudo.
É aprender a continuar mesmo sem saber tudo.
Talvez seja essa a grande humildade da existência: reconhecer que há limites para aquilo que compreendemos. Que nem todas as respostas chegam quando queremos. Que há perguntas que precisam de amadurecer dentro de nós antes de encontrarem linguagem. Que há acontecimentos que só conseguimos ler muito depois, quando a dor já não ocupa a página inteira.
A fé, talvez, comece aí.
Não necessariamente como certeza absoluta, mas como confiança discreta. A confiança de que pode haver sentido mesmo quando ainda não vemos o desenho completo. A confiança de que há vida para além da confusão. A confiança de que, mesmo quando não sabemos resolver a equação, podemos dar o próximo passo.
E o próximo passo, às vezes, é tudo.
Há uma beleza estranha nas incógnitas. Elas inquietam-nos, mas também nos mantêm vivos. Se soubéssemos tudo, talvez deixássemos de procurar. Se a vida viesse com soluções no fim do livro, talvez não aprendêssemos a pensar, a sentir, a escolher, a cair, a levantar, a refazer o caminho.
As incógnitas obrigam-nos a crescer.
Obrigam-nos a rever certezas. A abandonar respostas antigas. A aceitar que a vida não é uma linha reta, mas uma sucessão de curvas, interrupções, avanços, recuos e recomeços. Obrigam-nos a perceber que a existência não se calcula apenas com razão; calcula-se também com coragem, ternura, memória, perda, desejo e espanto.
Talvez a vida não seja uma equação para resolver.
Talvez seja uma expressão para simplificar com cuidado.
Retirar o que pesa demais.
Agrupar o que importa.
Respeitar os limites.
Não esquecer os sinais.
Aceitar os parênteses.
Reconhecer que há variáveis que não dependem de nós.
E continuar.
Continuar é, muitas vezes, a única resposta possível.
Não uma resposta perfeita. Não uma resposta definitiva. Mas uma resposta humana.
Porque há coisas que não têm resultado exato. O amor não tem. A saudade não tem. A esperança não tem. A dor não tem. A coragem não tem. A vontade de recomeçar também não.
E talvez seja essa a verdade mais bonita: nem tudo o que tem valor se calcula.
A vida também tem incógnitas. E talvez ainda bem. Talvez sejam elas que nos impedem de adormecer por dentro. Que nos obrigam a perguntar. Que nos empurram para a procura. Que nos lembram que estamos em construção.
Hoje não quero resolver a vida inteira.
Quero apenas aprender a olhar para as minhas incógnitas com menos medo. A aceitar que há perguntas que fazem parte do caminho. A confiar que nem sempre preciso de ter todas as respostas para continuar a viver com verdade.
Porque viver talvez seja isto:
não saber tudo,
não controlar tudo,
não compreender tudo,
e, ainda assim, continuar a procurar sentido
com o coração aberto.
Comentários
Enviar um comentário