A oliveira da Academia
Às vezes perguntam-me porque escolhi uma oliveira como símbolo da Academia.
Podia responder de forma simples. Dizer que foi por acaso. Que havia uma oliveira, que a plantei com um grupo de alunas, que a minha filha a pintou nas paredes da Academia, e que tudo isso, por si só, já bastava para lhe dar um lugar especial.
Mas há símbolos que começam por acaso e acabam por explicar-nos melhor do que qualquer discurso.
A oliveira não é uma árvore qualquer.
É uma árvore antiga. Mediterrânica. Paciente. Uma árvore que sabe esperar. Cresce devagar, atravessa verões secos, resiste ao vento, suporta o tempo, perde folhas e volta a dar fruto. Dizem que a oliveira é uma árvore que nunca morre verdadeiramente. Mesmo quando parece vencida, mesmo quando o tronco envelhece, mesmo quando é cortada, há vida escondida nas suas raízes. Há sempre um rebento possível. Há sempre uma forma discreta de recomeçar.
Talvez tenha sido por isso que ela ficou.
Porque a Academia também nasceu assim: de raízes, de persistência, de dias difíceis, de fé no trabalho e de uma teimosia bonita em acreditar que aprender muda vidas.
Olho para a oliveira e vejo muito mais do que uma árvore.
Vejo o tronco.
E talvez o tronco seja eu.
Não por vaidade, mas por responsabilidade. Porque fui ficando. Porque fui crescendo com este lugar. Porque também eu envelheço um pouco a cada ano letivo, a cada turma, a cada aluno que entra inseguro e sai maior do que julgava ser. O tronco vai ganhando marcas, como todos os troncos. Pequenas cicatrizes, curvas, rugas, sinais de tempestades antigas. Mas é também isso que lhe dá força. Uma árvore sem marcas talvez ainda não tenha vivido o suficiente.
Depois vejo os ramos.
E cada ramo é um aluno.
Cada um com a sua direção, o seu ritmo, a sua forma de procurar luz. Alguns crescem depressa. Outros precisam de mais tempo. Alguns parecem frágeis no início, quase tímidos, como se duvidassem da própria seiva. Mas, pouco a pouco, vão ganhando corpo. Vão ocupando espaço. Vão aprendendo que também lhes pertence o direito de crescer.
Ensinar talvez seja isto: ajudar cada ramo a descobrir para onde quer ir.
Não o obrigar a ser igual aos outros. Não o moldar à força. Não lhe roubar a inclinação própria. Apenas cuidar, orientar, sustentar, podar quando é preciso, dar tempo, dar confiança, dar luz.
Porque ninguém aprende verdadeiramente se não se sentir visto.
E uma sala de aula, como uma árvore, precisa de raízes e de sol.
As raízes são aquilo que não se vê, mas segura tudo: o esforço, a disciplina, a paciência, a repetição, os erros, as dúvidas, as explicações dadas outra vez, os cadernos riscados, os exercícios refeitos, as lágrimas escondidas antes de um teste, a alegria imensa de quem finalmente percebe aquilo que achava impossível.
Os frutos são outra coisa.
São os resultados que aparecem mais tarde. Às vezes muito mais tarde. Um aluno que ganha confiança. Uma escolha profissional. Uma família que se orgulha. Um adulto que um dia se lembra de uma frase dita numa aula. Uma criança que cresce e percebe que afinal era capaz. Um ramo que, um dia, dará origem a outros ramos: filhos, alunos, famílias, histórias, futuros.
É por isso que uma escola nunca acaba no dia em que fecha a porta.
Continua em cada pessoa que passou por ela. Continua nos gestos, nas palavras, nas pequenas coragens que ajudou a nascer. Continua quando um antigo aluno explica ao filho que a Matemática não é um bicho. Continua quando alguém escolhe não desistir porque, um dia, houve quem acreditasse primeiro. Continua quando uma aprendizagem se transforma em confiança e a confiança se transforma em caminho.
E por trás da oliveira há um sol a nascer.
Também ele não está ali por acaso.
O sol representa o recomeço de cada dia. A esperança que nasce do conhecimento. A luz da sabedoria que não aparece de repente, mas se conquista. Porque estudar é isso: abrir janelas por dentro. É deixar entrar claridade onde antes havia medo. É transformar o desconhecido em pergunta, a pergunta em procura, a procura em descoberta.
A sabedoria não é apenas saber respostas.
É aprender a olhar melhor. É compreender que o erro também ensina, que a dúvida também é caminho, que ninguém cresce sem se enganar algumas vezes. É perceber que o conhecimento não serve para nos pôr acima dos outros, mas para nos tornar mais humanos, mais livres, mais responsáveis.
Talvez por isso a oliveira e o sol façam tanto sentido juntos.
Uma fala de permanência.
O outro fala de renascimento.
Uma lembra-nos que é preciso criar raízes.
O outro lembra-nos que é preciso continuar a procurar luz.
A oliveira da Academia é, para mim, uma espécie de promessa.
A promessa de que cada aluno que passa por aqui leva alguma coisa. Talvez não leve tudo o que eu gostaria. Talvez nem sempre leve a Matemática inteira, nem todas as fórmulas, nem todos os métodos. Mas espero que leve mais do que isso. Que leve a certeza de que é capaz. Que leve algum rigor. Alguma coragem. Alguma esperança. Que leve a ideia de que aprender exige trabalho, sim, mas também afeto, presença e confiança.
Um dia, quando eu já não estiver cá, a oliveira permanecerá.
Talvez o tronco esteja mais antigo. Talvez os ramos sejam outros. Talvez muitas folhas tenham caído e nascido de novo. Mas ela continuará ali, contando em silêncio a história de quem passou. Os ramos que hoje crescem darão origem a novos ramos. E esses novos ramos talvez já não saibam todos os nomes, nem todos os rostos, nem todos os dias.
Mas saberão alguma coisa.
Saberão que ali houve uma professora antiga que um dia viveu apaixonada pela Matemática e pela vida.
Uma professora que acreditava que ensinar era muito mais do que explicar conteúdos.
Era plantar.
Era cuidar.
Era esperar.
Era confiar que, mesmo quando nada parecia acontecer, alguma coisa crescia por dentro.
E talvez seja essa a verdadeira simbologia da oliveira.
Não a árvore em si, mas aquilo que ela nos ensina: que o tempo não destrói tudo; que algumas raízes sobrevivem às ausências; que há frutos que só chegam depois de muita paciência; que cada ramo tem direito à sua luz; e que a educação, quando é feita com amor, permanece muito para além de nós.
A oliveira é a Academia.
Mas também são os meus alunos.
Também é a minha filha, que a pintou nas paredes como quem deixa uma parte de si no lugar onde a mãe semeou tantos dias.
Também sou eu, no meu tronco imperfeito, envelhecendo devagar, mas ainda de pé.
E é, sobretudo, tudo aquilo que continuará a crescer quando eu já não puder ver. Quando eu morrer quero ser cinza dessa oliveira e viver aninhada nas ra´zes desse tronco que presenciou anos e anos de histórias.

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