A minha Teoria da Cartografia Humana

Tenho uma teoria sobre as pessoas.

Chamo-lhe, por agora, a Teoria da Cartografia Humana .

Talvez porque sempre achei que as pessoas não são todas feitas da mesma geografia. Há pessoas que são montanha. Há pessoas que são planalto. Há pessoas que são planície. E há pessoas que são vale. Algumas trazem dentro mapas inteiros, com curvas de nível, falhas tectónicas, rios subterrâneos e altitudes que só se descobrem depois de muito caminho.

As pessoas montanha são raras.

Têm densidade e elevação. Não apenas altura, que isso qualquer ego mal resolvido consegue fingir. Têm elevação de caráter. Crescem para cima, mas também para dentro. São feitas de tempo, de silêncio, de resistência, de sabedoria acumulada como pedra antiga.

Uma pessoa montanha não precisa fazer barulho para existir.

Está lá.

Firme. Inteira. Com sombra suficiente para abrigar e altitude suficiente para nos obrigar a olhar mais longe. As pessoas montanha ensinam-nos que crescer não é aparecer mais. É sustentar melhor. É ganhar profundidade. É saber que há ventos que passam, tempestades que chegam, invernos que demoram, mas que nem tudo o que treme cai.

São pessoas que já foram atravessadas por placas tectónicas interiores.

Perderam. Recomeçaram. Partiram-se em alguns lugares. Criaram falhas. Ergueram-se noutras zonas. Porque, às vezes, uma montanha nasce precisamente do choque. Da pressão. Do encontro violento entre aquilo que fomos e aquilo que a vida nos obrigou a ser.

Talvez seja por isso que as pessoas montanha não julgam com facilidade.

Sabem que toda a paisagem tem história.

Depois há as pessoas planalto.

Estão a meio caminho da montanha.

Já têm alguma altitude, alguma visão, alguma solidez. Não vivem totalmente à superfície, mas ainda lhes falta a verticalidade interior das montanhas. São pessoas que começaram a ganhar corpo, que já se elevaram um pouco acima da planície comum, mas ainda não passaram pelas erosões necessárias para se tornarem profundas.

As pessoas planalto são estáveis.

Às vezes até confortáveis. Têm chão, têm largura, têm alguma calma. Conseguem ver mais longe do que as planícies, mas ainda nem sempre sabem olhar para dentro. Podem tornar-se montanha, se aceitarem o tempo, a dúvida, a perda, a aprendizagem e essa coisa tão difícil que é deixar de ter sempre razão.

Porque ninguém se torna montanha apenas por acumular anos.

É preciso acumular humanidade.

Há também as pessoas planície.

Não digo isto com desprezo. As planícies têm a sua beleza. São claras, abertas, previsíveis. Vê-se longe nelas. Não escondem grandes acidentes geográficos. Não nos obrigam a grandes escaladas. Às vezes até descansam.

Mas há pessoas planície que vivem demasiado à superfície.

Tudo nelas é raso, imediato, horizontal. Não há grande densidade, nem grandes sombras, nem grandes profundidades. São fáceis de atravessar, mas difíceis de habitar. Podemos conversar com elas sobre o tempo, sobre a vida prática, sobre horários, acontecimentos, novidades. Mas quando tentamos falar de dor, de medo, de fragilidade, de sentido, percebemos que ali não há muita altitude emocional.

Não é maldade.

É relevo baixo.

São pessoas que talvez nunca tenham sido obrigadas a descer dentro de si. Ou talvez tenham descido e não tenham gostado da paisagem. Vivem em terreno seguro, sem grandes abismos, sem grandes perguntas. E, convenhamos, há dias em que uma planície até dá jeito. O problema é quando precisamos de abrigo e percebemos que não há onde encostar a alma.

E depois há as pessoas vale.

As pessoas vale são fundas.

Às vezes fundas demais. Guardam águas antigas, memórias, perdas, silêncios. São lugares de recolha. Tudo desce até elas: a dor dos outros, os segredos dos outros, os cansaços dos outros. Têm uma capacidade imensa de acolher, mas correm o risco de se esquecerem de subir.

As pessoas vale sabem ouvir.

Sabem receber lágrimas sem se assustar. Sabem guardar confidências. Sabem criar abrigo. Mas, às vezes, vivem demasiado tempo na sombra das montanhas alheias. Habituam-se a ser lugar de passagem das águas, lugar onde tudo vai parar, lugar onde os outros despejam o que não conseguem carregar.

E isso cansa.

Há vales belíssimos, sim. Mas até os vales precisam de sol.

Talvez todos nós sejamos uma mistura destas geografias.

Há dias em que sou montanha e aguento.
Há dias em que sou vale e recolho tudo.
Há dias em que sou planalto, tentando ganhar distância.
E há dias em que sou planície, porque também é preciso descansar da própria profundidade.

O problema começa quando confundimos ausência de relevo com paz.

Vivemos tempos líquidos, como dizia Bauman. Tudo escorre, tudo passa, tudo se desfaz depressa: relações, promessas, conversas, compromissos, afetos. Talvez por isso me interessem cada vez mais as pessoas com densidade. Pessoas que não se evaporam ao primeiro desconforto. Pessoas que não mudam de solo conforme a conveniência. Pessoas que têm raízes, camadas, história, cartografia.

Pessoas com curvas de nível.

Gosto de gente que não cabe num mapa simples.

Gente que tem falhas, mas também firmeza. Gente que foi erodida pela vida e, ainda assim, não perdeu a beleza. Gente que não precisa parecer alta para ter grandeza. Gente que nos obriga a subir um pouco, a respirar melhor, a ver o mundo de outro ângulo.

Gente montanha.

Não perfeita. As montanhas também têm ravinas, pedras soltas, zonas perigosas e caminhos onde se tropeça. Mas têm uma coisa que me comove: permanecem. Não no sentido imóvel, frio ou arrogante. Permanecem como quem sabe que a verdadeira força não está em nunca mudar, mas em não perder a estrutura quando tudo muda à volta.

Também desconfio um bocadinho das pessoas sem cartografia.

Aquelas que parecem sempre lisas demais. Sem sombra, sem dúvida, sem pergunta, sem memória. Pessoas em modo satélite: vê-se tudo por cima, mas nada por dentro. Talvez sejam práticas. Talvez sejam leves. Talvez sejam excelentes para reuniões. Mas eu, que tenho alma de geóloga emocional, preciso de mais do que superfícies.

Preciso de relevo.

De gente que tenha subido e descido dentro de si. De gente que saiba que um abismo não é apenas perigo; às vezes é profundidade. De gente que entenda que uma falha não é necessariamente ruína; pode ser o lugar por onde começa uma nova paisagem.

Talvez o caráter seja isto: uma geografia construída pelo tempo.

A forma como resistimos às tempestades.
A forma como acolhemos quem chega cansado.
A forma como usamos a nossa altura: para ver mais longe
A forma como deixamos que a vida nos transforme sem nos tornar áridos.

Porque há montanhas que esmagam.

E há montanhas que protegem.

Há vales que acolhem.

E há vales que nos prendem.

Há planícies que descansam.

E há planícies onde nada acontece.

Há planaltos que prometem.

E há planaltos que se acomodam à sua meia-altura.

No fundo, talvez não importe tanto a geografia com que nascemos.

Importa o que fazemos com ela.

Se deixamos que a vida nos torne mais fundos ou apenas mais duros. Se usamos as nossas cicatrizes para compreender melhor os outros ou para justificar a nossa falta de cuidado. Se crescemos em sabedoria ou apenas em altitude aparente.

Eu gosto de pessoas montanha.

Mas gosto sobretudo das que sabem que foram pedra antes de serem paisagem.

Das que não se esqueceram do vale de onde vieram.

Das que têm altura, mas também humildade.

Das que oferecem sombra sem nos roubar a luz.

E talvez seja essa a minha teoria: as pessoas não se medem pelo tamanho que ocupam no mundo, mas pelo relevo que deixam em nós.

Algumas passam e não alteram a paisagem.

Outras, quando chegam, mudam-nos o horizonte.

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