A fé como lugar de repouso

A pergunta veio devagar ... quase num sussurro .... "A professora é católica? Vai à igreja>?" ... "É uma pessoa de fé?"

Sorri à pergunta feita ... e respondi que a fé nem sempre cabe numa igreja.

Às vezes cabe num raio de sol que entra pela janela numa manhã difícil. Cabe no cheiro da terra depois da chuva. Cabe no verde das árvores quando parecem respirar por nós. Cabe na bravura do mar, nessa forma antiga de nos lembrar que há forças maiores do que a nossa vontade. Cabe no silêncio de quem nos escuta sem pressa. Cabe num abraço que não resolve nada, mas segura tudo por uns instantes.

Disse-lhe que durante muito tempo, talvez nos tenham ensinado a pensar a fé como um lugar fixo. Um edifício. Um ritual. Uma oração repetida. Um conjunto de gestos certos, palavras certas, horas certas, respostas certas. Mas a fé, quando é verdadeira, talvez não seja apenas repetição. Talvez seja presença. Talvez seja uma forma de olhar.

Expliquei-lhe que não rejeito a fé que reza.

Mas que procuro uma fé que também saiba escutar.

Uma fé que não viva apenas das palavras que se dizem, mas do sentido que se lhes dá. Porque há orações que se repetem como quem passa os dedos por contas antigas, mas sem tocar o coração. E há silêncios que são mais oração do que muitos discursos. Há pessoas que nunca entram numa igreja e, ainda assim, trazem dentro uma luz limpa. Há outras que sabem todas as palavras, mas esqueceram a ternura.

Que talvez acreditar seja mais profundo do que cumprir.

Que acredito numa fé que se aproxima da gratidão. Essa capacidade de olhar para o mundo e perceber que nada nos é totalmente devido. O sol não nos deve nascer todos os dias. O mar não nos deve beleza. As árvores não nos devem sombra. As pessoas não nos devem amor. E, no entanto, tantas vezes recebemos. Recebemos luz, alimento, amizade, cuidado, caminho, recomeços. Recebemos dias que não controlamos e encontros que não planeámos.

E agradecer é também uma forma de fé.

Agradecer é reconhecer que a vida não é apenas conquista, mérito ou cálculo. Há muito que nos chega por mistério. Por generosidade. Por coincidência. Por energia. Por essa matemática invisível em que toda a causa tem um efeito, mas nem todos os efeitos se compreendem no momento em que acontecem.

Há encontros que só entendemos anos depois.

Há perdas que, sem deixarem de doer, nos empurraram para lugares onde precisávamos de chegar. Há pessoas que passaram brevemente e nos mudaram para sempre. Há caminhos que pareciam erro e eram passagem. Há atrasos que nos salvaram. Há despedidas que nos devolveram a nós próprios.

Talvez a fé seja isto: confiar que nem tudo o que acontece se revela de imediato.

Não uma confiança ingénua. Não uma anestesia para a dor. Não a ideia fácil de que tudo acontece por uma razão bonita. Há dores que não têm beleza nenhuma. Há injustiças que não merecem explicações suaves. Há sofrimentos diante dos quais a única atitude digna é o respeito e o silêncio.

Mas, mesmo aí, talvez a fé seja uma pequena vela.

Não ilumina a casa inteira. Mas impede que a noite vença por completo.

A fé de que falo não é uma certeza arrogante. É quase o contrário. É uma humildade. A humildade de saber que não sabemos tudo. Que não controlamos tudo. Que não somos donos do mundo, nem dos outros, nem sequer de nós próprios em todos os dias. É aceitar que há uma dimensão da vida que não se mede, não se pesa, não se prova em laboratório, mas se sente no corpo quando algo nos comove.

Sinto fé diante do mar.

Não porque ele me explique Deus, mas porque me devolve a minha escala. O mar é grande demais para a minha pressa. Antigo demais para as minhas urgências. Forte demais para as minhas ilusões de controlo. Diante dele, lembro-me de que sou pequena. E isso, em vez de me diminuir, repousa-me. Há descanso em não ter de ser o centro de tudo.

Sinto fé nas árvores.

Na paciência com que crescem. Na forma como aceitam as estações. Na maneira como perdem folhas sem se julgarem acabadas. Talvez as árvores saibam mais sobre recomeçar do que nós. Nós desesperamos quando a vida nos despe. Elas esperam. Sabem que nem toda a nudez é fim. Às vezes é preparação.

Sinto fé nos povos.

Nos encontros com quem vem de longe. Nas línguas diferentes. Nos sotaques. Nas comidas partilhadas. Nas histórias que nos mostram que o mundo é maior do que a nossa rua, a nossa rotina, a nossa forma de ver. Há qualquer coisa de sagrado em escutar alguém que carrega outra geografia no corpo. Cada povo é uma biblioteca viva. Cada cultura é uma maneira diferente de responder às mesmas perguntas antigas: como amar, como sofrer, como celebrar, como enterrar os mortos, como agradecer a vida.

Sinto fé no outro.

Talvez seja aí que ela comece verdadeiramente.

Acreditar no outro como lugar de encontro. Acreditar que ainda há bondade. Que ainda há quem escute. Que ainda há quem fique. Que ainda há quem nos olhe sem nos reduzir. Que ainda há pessoas capazes de abrir espaço dentro de si para acolher uma dor que não é sua.

Num tempo em que tanta gente fala e tão pouca gente escuta, a escuta tornou-se um ato espiritual.

Escutar alguém é dizer: a tua existência importa. A tua história merece tempo. A tua dor não me é indiferente. Talvez isto seja mais próximo da fé do que muitas palavras ditas sem corpo. Porque a fé, quando não se traduz em cuidado, corre o risco de ser apenas som.

Por isso acredito mais numa fé que se vê nos gestos, como a mão que ajuda, a palavra que não humilha, a presença que não abandona ou a capacidade de pedir desculpa. Acredito na fé que vem da generosidade de dar sem transformar o gesto em dívida. Na delicadeza de perceber quando alguém precisa de colo e quando precisa apenas de silêncio.

A fé, para mim, é também energia, percebes?

Não no sentido vazio das frases feitas, mas nessa perceção profunda de que aquilo que fazemos circula, que o modo como tratamos alguém deixa marcas e que uma palavra fora de tom tem o poder de levantar ou ferir, tal como um gesto pode abrir ou fechar portas, um cuidado pode salvar um dia e uma indiferença pode aumentar uma solidão.

Acredito numa fé que me diz que toda a causa tem um efeito.

Nem sempre imediato. Nem sempre visível. Mas tem.

O amor que damos não desaparece. A ternura que oferecemos não se perde. A bondade que praticamos talvez não volte pela mesma porta, mas volta de alguma forma, porque nada do que é verdadeiramente humano fica sem eco. Talvez o universo tenha uma memória que nós não sabemos ler.

E talvez a fé seja confiar nesse eco, consegues entender-me?

Expliquei-lhe também que, muitas vezes, não precisamos de uma fé que nos dê todas as respostas.

Precisamos de uma fé que nos ajude a respirar melhor no meio das perguntas. Uma fé que não nos obrigue a fingir certezas. Uma fé que nos deixe duvidar, cair, recomeçar, agradecer, espantar-me. Uma fé que não nos afaste da vida concreta, mas nos aproxime dela com mais atenção e nos faça perceber que, apesar de tudo, ainda há beleza. Apesar da dor, ainda há encontro. Apesar do medo, ainda há cuidado. Apesar da finitude, ainda há manhãs, e que, apesar da nossa pequenez, ainda há luz.

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