Segundas-feiras

Há qualquer coisa de misterioso nas segundas-feiras.

Não falo do calendário, nem da disciplina dos relógios, nem dessa pequena violência de recomeçar quando ainda trazemos o corpo preso ao descanso. Falo de outra coisa. De uma espécie de convite secreto que a vida nos faz, todas as semanas, para tentarmos outra vez.

A segunda-feira é o mais humilde dos começos.

Não tem o brilho solene do primeiro dia do ano, nem a pompa das grandes decisões, nem a ilusão de que tudo pode mudar de uma vez. A segunda-feira sabe que a transformação quase nunca chega com trombetas. Chega devagar. Entra pela cozinha, abre as janelas, faz café, arruma papéis, responde a mensagens, pega ao colo os cansaços e, mesmo assim, insiste: recomeça.

Talvez por isso eu goste dela.

Porque a segunda-feira não promete milagres. Promete trabalho. E há uma verdade funda nisso. A vida não se recompõe num gesto heroico, mas em pequenas fidelidades: levantar, respirar, voltar ao que importa, pegar outra vez naquilo que ontem parecia pesado demais. Recomeçar é, muitas vezes, uma forma discreta de coragem.

Há quem veja na segunda-feira um castigo. Eu vejo uma espécie de perdão.

Como se o mundo dissesse: ainda tens tempo. Ainda podes tentar de novo. Ainda podes ser mais inteiro do que foste na semana passada. Ainda podes falar com mais doçura, pensar com mais clareza, falhar com menos culpa, viver com mais presença. A segunda-feira não apaga nada, mas abre espaço. E, às vezes, é só isso que precisamos: espaço para não sermos apenas a soma cansada dos dias anteriores.

Gosto de pensar que a vida inteira talvez se pareça com uma sucessão de segundas-feiras.

Nem sempre luminosas, nem sempre leves, nem sempre desejadas — mas cheias dessa possibilidade austera e bonita de voltar ao princípio sem negar o que ficou para trás. Porque recomeçar não é nascer de novo; é continuar, levando connosco tudo o que já fomos, mas tentando dar-lhe outra forma.

No fundo, as segundas-feiras lembram-nos uma coisa simples e imensa:

que a esperança não é um excesso de entusiasmo. É uma prática.
Uma maneira de pegar no dia, mesmo imperfeito, e dizer-lhe baixinho: vamos outra vez.

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