Quantos anos demoramos a dizer adeus ?

Há ausências que não passam.

Aprendemos a andar com elas, a dobrar-lhes a roupa, a sentá-las à mesa, a deixá-las dormir ao nosso lado sem fazer muito barulho. Mas passar, passar mesmo, não passam. Transformam-se. Mudam de nome, mudam de lugar, mudam de voz. Às vezes já não doem como faca; doem como inverno. Ficam no corpo, na memória, na maneira como olhamos o mundo quando ninguém está a ver.

Faz trinta e dois anos que partiste, pai.

Trinta e dois anos é quase uma vida inteira. E, no entanto, há em mim uma parte que continua parada no instante em que te foste. Como se o tempo, esse grande mentiroso, tivesse seguido para toda a gente menos para aquela filha que ficou a olhar para a porta, à espera de um regresso que a razão sabia impossível, mas o coração recusava aceitar.

Demorei anos a fazer o luto. Talvez ainda o faça.

Foram anos de pesadelos, de lágrimas sem aviso, de um sobressalto constante da alma. Anos em que a tua ausência não era uma ideia: era um lugar. Um lugar frio. Um lugar sem colo. Um lugar onde eu me sentava sozinha, à espera de uma voz, de um gesto, de um abraço que não vinha. A morte, quando leva um pai, não leva apenas uma pessoa. Leva também uma linguagem inteira de proteção. Leva o lugar onde descansávamos do mundo.

Durante muito tempo afastei-me de Deus.

Não por descrença, mas por mágoa. Porque me pareceu que Deus não tinha sido bom para mim. Ou, pelo menos, que não tinha sido justo. E quando se perde alguém assim, tão cedo, tão fundamente, a fé deixa de ser um altar e passa a ser uma pergunta. Eu fazia essa pergunta em silêncio, com a raiva triste de quem não compreende por que razão o amor lhe foi retirado tão depressa. Tu tinhas quarenta e quatro anos. Quarenta e quatro anos não é idade para morrer. É idade para viver ainda muito. Para ensinar mais. Para rir mais. Para ver crescer. Para ficar.

E tu amavas viver.

Talvez por isso a tua falta tenha sido tão violenta: porque não partiu apenas um homem, partiu uma força. Uma alegria de existir. Uma maneira inteira de habitar o mundo. Herdaste-me sem saberes tudo aquilo que me deixarias. Essa força de acordar cedo para viver mais. Essa fome de estudar, de saber, de compreender muitas coisas. Esse amor à Matemática e aos números, como se a ordem dos raciocínios pudesse dar alguma paz ao caos da vida. Esse fascínio pelo mar e pelo pôr do sol, como se houvesse neles uma verdade que não precisa de ser explicada.

Fazes-me falta de uma maneira que eu não sei se se entende.

Talvez certas faltas não tenham tradução. Talvez a língua seja sempre pequena para a medida de alguns amores. Faltou-me o teu colo no dia em que terminei o curso. Faltou-me o teu abraço e o teu orgulho — esse orgulho quieto e imenso que eu sei que terias sentido ao saber-me engenheira. Faltou-me o teu braço no dia em que casei. Faltou-me sempre o teu colo para os teus dois netos, esse colo que eles nunca conheceram e que, ainda assim, de algum modo, também lhes pertence naquilo que eu lhes dou e que veio de ti.

Continuas a ser o maior roubo que a vida me fez.

A maior perda. O grito mais fundo. Há perdas que nos tiram alguma coisa; esta tirou-me um centro. No dia em que te perdi, abriu-se em mim um buraco no peito. Não uma ferida apenas — um buraco. Um vazio com eco. E durante muitos anos vivi assim, com esse espaço escuro dentro de mim, tentando fazer da coragem uma tábua e da rotina uma ponte. Só muito mais tarde, com o amor dos meus filhos, é que esse buraco começou a conhecer outra forma de preenchimento. Não porque alguém substitua um pai — ninguém substitui um pai —, mas porque o amor, quando nasce de novo, ensina a respirar em lugares onde antes só havia dor.

A vida foi dura sem ti.

Teria sido mais fácil contigo para me amparar. Mais leve. Menos áspera. Não me teria faltado nada essencial, porque tu eras esse essencial. Faltaram-me as tuas mãos para me guiarem, o teu ombro para descansar, o teu conselho para sossegar a ansiedade nos dias maus. Faltou-me a tua presença simples, essa presença que talvez na altura eu não soubesse nomear como milagre, mas que hoje reconheço como a mais completa forma de abrigo.

Ainda falo contigo todos os dias.

Peço-te conselhos em forma de sinal. Espero por respostas em pequenos acontecimentos, numa coincidência, numa frase que alguém diz, numa luz que aparece à hora certa. E acredito, de um modo sereno e fundo, que me acompanhas sempre. Não num sentido espetacular, mas nessa fidelidade invisível dos que amaram muito e por isso nunca partem por inteiro. Estás nos meus gestos. Na maneira como seguro a caneta. Na forma como coço o nariz enquanto penso. Na testa franzida quando o assunto é sério e pede atenção. Estás no meu olhar, na minha gargalhada larga, no meu jeito de andar. Há em mim uma geografia tua. Um mapa de heranças pequenas e imensas. Como se o corpo soubesse aquilo que a morte não conseguiu apagar.

Também herdei de ti a minha transparência: essa incapacidade de fingir e essa honestidade teimosa de dizer sempre o que sinto. Espelha-se no meu rosto quando gosto ou não gosto de algo, e digo o que penso sem rodeios, porque me ensinaste, sem discursos, que devemos ser sempre verdadeiros. Com os outros e connosco. E talvez essa seja uma das tuas maiores permanências em mim: a coragem de sentir, de me dar e de ser, de não fazer da vida uma sala escura onde tudo se esconde, mas uma porta aberta onde tudo é claro. Ensinaste-me muitas coisas e também a amar sem medida. Porque era assim que gostavas de mim. Eu era o centro da tua vida e tu eras o centro da minha. Há ligações assim: não são apenas afeto, são arquitetura. Sustentam o modo como uma pessoa inteira se ergue e se mantém.

Fazes-me falta todos os dias.

Porque eu era, e continuo a ser, uma menina do papá. E há uma espécie de infância que nunca termina quando o amor foi tão inteiro. Continuamos a procurar esse porto seguro, esse abraço apertado, essa certeza de que, aconteça o que acontecer, alguém nos verá por dentro e ainda assim ficará. Tu eras isso. Corajoso. Amigo. Luminoso. Todos te adoravam, e eu sei porquê: tinhas essa rara capacidade de fazer os outros sentirem-se maiores e válidos junto de ti.

És a maior saudade da minha vida.

Não a saudade leve, quase bonita, que às vezes nos visita como uma canção. A tua é uma saudade profunda, estruturante, uma saudade que ajudou a fazer de mim quem sou. E talvez seja esse o paradoxo mais difícil do amor: até a dor de perder alguém pode tornar-se matéria de construção. Não porque a perda seja boa — nunca é —, mas porque quem amou verdadeiramente deixa em nós ferramentas para continuar. Tu deixaste-me isso. A força. A honestidade. O trabalho. A ternura imensa pelos outros. O amor pela vida, mesmo depois de a vida ter sido tão dura comigo.

Às vezes penso que o luto é isto:

aprender que uma pessoa pode continuar a viver dentro de nós sem deixar de nos faltar. Não se ultrapassa um pai. Aprende-se a ser filha de outra maneira. A conversar com o invisível. A reconhecer presenças em vez de procurar corpos. A perceber que o amor, quando é grande, muda de estado, mas não desaparece.

Sei que, de algum modo, continuas comigo.

Na mulher que me tornei. Na mãe que sou. Na professora exigente e firme. Na maneira como amo os meus filhos e me dou aos outros. Na forma como me levanto cedo e deito tarde, como estudo, como trabalho, como olho o mar e o pôr do sol com essa reverência silenciosa de quem sabe que há belezas que são também uma forma de oração.

Trinta e dois anos passaram.

E eu continuo a precisar de ti. Não com desespero, como nos primeiros tempos, porque o amor chegou à minha vida e me resgatou, mas com essa fidelidade profunda com que se precisa de uma raiz.

Fazes-me falta, pai.

Farás sempre.

E talvez amar alguém depois da sua morte seja isto:

continuar a chamá-lo para dentro dos dias, não porque esperamos que volte, mas porque sabemos que nunca foi embora por completo.

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