Obrigada Susana.
Há dias em que a luz cai no mundo como se Deus tivesse decidido abrir um pouco mais a janela, e tudo ganha uma nitidez improvável: as árvores parecem saber qualquer coisa que nós esquecemos, o ar entra mais fundo nos pulmões, e até o silêncio tem uma respiração mais mansa. Hoje é um desses dias. Um dia em que a claridade não se limita ao céu. Há também luz dentro de mim. E essa, talvez, seja a forma mais rara de meteorologia.
Penso nas pessoas que nos fazem bem. Mas bem mesmo. Não aquelas que passam por nós como passam os comboios por estações pequenas, com pressa e sem memória. Falo das outras. Das que param. Das que se demoram. Das que olham para nós com uma espécie de fé silenciosa, como se vissem uma cidade inteira onde nós ainda só víamos terrenos baldios.
Há pessoas assim. Pessoas que chegam à nossa vida e, sem alarde, mudam a mobília do coração. Não fazem barulho ao entrar, mas deixam tudo mais habitável. Olham para nós e encontram valor onde nós tínhamos posto dúvida, encontram força onde nós tínhamos posto cansaço, encontram futuro onde nós, distraídos ou feridos, só víamos nevoeiro.
E é uma coisa espantosa, essa de alguém acreditar em nós antes de nós próprios. Quase um milagre laico. Uma forma de ressurreição sem trombetas nem espetáculo. Apenas um gesto, uma palavra, uma mão estendida na altura certa. Às vezes, é só isso que basta para uma vida começar a subir a encosta.
Porque há pessoas que nos dão a mão e nos empurram ladeira acima sem nos humilhar, sem nos cobrar, sem fazer do nosso tropeço um espetáculo. Seguram-nos com uma firmeza tão natural que quase nos esquecemos do abismo. E quando vacilamos, não vacilam connosco: ficam. Que verbo mais bonito este, ficar. Num mundo tão cheio de partidas, desistências e ausências, ficar é talvez a forma mais pura do amor.
Essas pessoas merecem a nossa lealdade. Mas não apenas por gratidão, que a gratidão, sendo bela, às vezes ainda é uma conta. Merecem-na porque são bonitas por dentro. Porque têm coração bom. Porque há nelas qualquer coisa de árvore antiga: abrigam. E de fonte: matam a sede sem perguntar o nome de quem se aproxima. São raras, sim, mas existem. E quando existem perto de nós, o mundo deixa de ser um lugar improvisado e torna-se casa.
Talvez a amizade verdadeira seja isto: reconhecer que algumas pessoas não passaram pela nossa vida, ficaram na sua arquitetura. São coluna, são viga, são janela aberta. E nós, que tantas vezes nos julgamos feitos apenas de fragilidades e remendos, descobrimo-nos também feitos da matéria luminosa que os outros souberam ver em nós.
Hoje está sol. Mas não é só lá fora.
Há uma claridade calma a atravessar-me, como se o dia me dissesse, sem palavras, que ainda há beleza suficiente no mundo para justificar a caminhada. E talvez haja dias assim justamente por causa dessas pessoas: porque a bondade é contagiosa, porque o amor ilumina, porque ser visto com verdade aquece mais do que qualquer verão.
Hoje está sol e há luz dentro de mim.
E, por uma vez, as duas coisas coincidem.