O que aprendemos quando as coisas não correm como planeado
Gostamos muito de planos. Fazem-nos sentir adultos, organizados e vagamente superiores ao caos. Um plano é uma forma elegante de dizer à vida: já pensei nisto, já antecipei variáveis, já distribuí tarefas e, se tudo correr bem, até consigo chegar ao fim da semana com alguma dignidade.
O problema, como sabemos, é a parte do “se tudo correr bem”.
Porque há sempre qualquer coisa que falha. Um atraso. Uma mudança. Um cansaço que aparece sem aviso. Uma resposta que não chega. Um dia que parecia simples e afinal trazia intenções próprias. E é nesse ponto, precisamente nesse ponto em que as coisas deixam de caber no desenho que fizemos, que começamos a aprender qualquer coisa mais profunda.
Aprendemos, por exemplo, que controlar tudo é um projeto bonito, mas excessivamente ambicioso. Aprendemos que há dias em que fazer o melhor possível já é uma forma muito séria de competência. E aprendemos também que improvisar não é necessariamente falhar; às vezes, é só continuar por outro caminho, com menos elegância e mais verdade.
Nem sempre reagimos bem a isso, claro. Há em nós uma parte que gostaria de manter a compostura até ao fim, como aquelas pessoas dos anúncios que resolvem imprevistos com um sorriso leve e roupa sem vincos. Na vida real, porém, o mais comum é uma pessoa reorganizar tudo à pressa, respirar fundo com algum dramatismo e repetir interiormente frases como “não era nada disto que eu tinha pensado”.
Ainda assim, é curioso: muitas das coisas que mais nos ensinaram não vieram dos dias impecáveis. Vieram dos outros. Dos dias em que foi preciso recalcular. Em que a agenda falhou, o plano encolheu, a energia não chegou, e mesmo assim alguma coisa se salvou. Talvez até alguma coisa importante.
Quando as coisas não correm como planeado, percebemos melhor o que em nós é rigidez e o que em nós é força. Descobrimos se sabemos abrandar, pedir ajuda, mudar de estratégia, desistir do acessório para proteger o essencial. E isso diz muito mais sobre nós do que o sucesso limpo dos dias fáceis.
Às vezes, aquilo a que chamamos “não correr bem” é apenas não correr como tínhamos imaginado. E há uma diferença subtil, mas decisiva, entre as duas coisas. Nem tudo o que se desvia se perde. Nem tudo o que se altera piora. Há caminhos que só se revelam quando o traçado inicial falha.
Talvez crescer também seja isto: perceber que a vida não nos pede apenas organização, competência e antecipação. Pede-nos elasticidade. Humor. Alguma humildade. E a inteligência de aceitar que há beleza possível mesmo no meio do improviso.
No fundo, talvez os planos sirvam não para garantir que tudo corre bem, mas para nos dar um ponto de partida. Depois, a vida faz o resto. E nós vamos atrás, com a agenda numa mão, a paciência na outra e aquela expressão muito particular de quem já percebeu que a maturidade consiste, muitas vezes, em saber reformular os planos sem fazer demasiado escândalo. Porque quase nunca é o plano que nos define. É a forma como voltamos à vida no dia a seguir, depois dele se desfazer um bocadinho.
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