Nem sempre é primavera... nem sempre há sol

Há primaveras que não florescem: hesitam. Ficam à porta do mundo como alguém que perdeu a coragem de entrar. Trazem luz, sim, mas uma luz indecisa, como se o céu tivesse dúvidas sobre si mesmo. O vento muda de direção sem avisar, a manhã nasce com promessas que a tarde desmente, e nós, que julgávamos ter aprendido alguma coisa sobre permanência, descobrimos outra vez que até a estação das flores pode ser um lugar de incerteza.

Talvez por isso haja dias em que nos parecemos com esta primavera. Dias em que acordamos sem a nitidez do entusiasmo, sem a musculatura invisível da vontade. Dias em que o corpo cumpre, mas a alma falta. Dias em que tudo pesa um pouco mais do que devia: a chávena, a conversa, a memória, o silêncio. Dias em que a tristeza não chega a ser tragédia, mas também não nos concede a delicadeza de ser apenas sombra. Fica ali, pousada em nós, como uma ave húmida.

Vivemos num tempo que nos quer inteiros, firmes, luminosos, capazes, inspirados, produtivos, gratos, sorridentes. Como se estar bem fosse uma obrigação moral. Como se fraquejar fosse uma falha de caráter. Como se a vulnerabilidade fosse um erro de cálculo. Mas há uma verdade que só os dias mais frágeis nos ensinam: ninguém se sustenta sempre de pé por dentro. Há cansaços que não se veem nas mãos, só no modo como olhamos a distância. Há desgastes que não fazem ruído, mas vão gastando devagar a margem das coisas.

Não estamos sempre bem. E talvez a maturidade comece exatamente quando deixamos de exigir isso de nós mesmos. Quando compreendemos que há uma dignidade funda em reconhecer o abalo. Que também faz parte da vida esta geografia irregular do sentir: os dias altos, os dias rasos, os dias em que somos casa, os dias em que somos apenas escombros à procura de linguagem.

Ser humano é isto: uma oscilação. Um coração que aprende tarde que nem sempre bater forte é sinal de alegria. Às vezes é medo. Às vezes é saudade. Às vezes é só exaustão. E, no entanto, continuamos. Não porque sejamos heroicos, mas porque há qualquer coisa em nós que insiste, mesmo quando tudo parece um quarto sem janelas. Uma espécie de raiz secreta. Uma fidelidade obscura à manhã seguinte.

E depois há as amigas.

As amigas que não resolvem o mundo, mas deslocam-lhe o peso. As que chegam sem alarde, mesmo de longe, e pousam em nós uma espécie de ternura portátil. As que não precisam de estar ao lado para nos segurarem o rosto invisível. As que percebem na pontuação da nossa voz aquilo que tentámos esconder nas palavras. As que enviam uma mensagem no momento exato em que a tarde ameaça desabar. As que nos puxam para cima não porque neguem a nossa dor, mas porque se sentam um pouco dentro dela connosco, até que volte a haver chão.

Há amizades que são uma forma superior de abrigo. Não têm telhado nem paredes, mas resguardam. Não curam tudo, mas impedem-nos de piorar sozinhas. São pequenas lanternas acesas do outro lado da distância. E às vezes basta isso: saber que alguém nos vê ainda inteiras, mesmo quando nos sentimos partidas. Saber que alguém acredita em nós nos dias em que já não conseguimos fazê-lo com a mesma convicção. Saber que o afeto pode atravessar quilómetros e chegar intacto, como chegam as coisas verdadeiras.

Talvez a salvação, se existir, tenha menos a ver com grandes respostas e mais com estas delicadezas. Uma voz amiga. Um gesto sem espetáculo. Uma presença que não exige performance. Alguém que nos lembre, com a simplicidade das coisas essenciais, que o inverno interior não é identidade, é travessia.

Por isso, se hoje o dia te parece nublado por dentro, não faças dele um julgamento. Faz dele um lugar de escuta. Nem todas as primaveras vêm para rebentar em flores; algumas vêm apenas para descongelar a terra. E isso, embora menos visível, também é milagre.

Há um tempo para abrir as janelas. E há um tempo para ficar quieta ao pé delas, a aprender outra vez o nome do que sente. Nenhum desses tempos é menor. Nenhum deles te diminui.

Somos feitas também destes dias menos motivantes, destes instantes de quebra, desta matéria frágil que tenta, apesar de tudo, continuar sensível sem endurecer. E talvez haja nisso uma coragem mais funda do que todas as euforias: continuar disponível para a vida, mesmo quando ela nos chega baça. Continuar a acreditar na beleza, mesmo quando ainda não a conseguimos tocar. Continuar.

A primavera anda incerta. E nós também. Mas às vezes, estar viva é só isto: atravessar neblinas sem deixar que o coração se feche por completo. E agradecer, em silêncio, às mãos que nos alcançam mesmo de longe.

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