Isabel
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Há convites que não chegam como convites. Chegam como quem abre uma janela numa casa fechada há dias. A Isabel faz isso sem avisar — encosta a janela e diz “vamos”, como se a cidade estivesse à nossa espera desde sempre.
E vamos. Sem trabalho. Sem desculpas. Sem aquela lista invisível de coisas por fazer que costuma andar atrás de mim como uma sombra bem-educada. Vamos só passear, que é uma palavra pequena para uma coisa tão grande.
Lisboa recebe-nos como quem reconhece. Há uma luz no Tejo que parece dizer o nosso nome baixinho, como se já nos tivesse visto noutras vidas, noutras versões de nós. Caminhamos sem pressa — o que, nos dias de hoje, é quase um ato de rebeldia.
Sentamo-nos num sítio bonito, desses que podiam ser cenário de filme, e pedimos um gin, porque há dias que pedem um gin e não explicações. Falamos. Ou melhor, conversamos como quem se encontra no meio de uma frase que já tinha começado há anos. Há amigas assim: leem-nos nas entrelinhas, completam-nos as pausas, entendem o silêncio como se fosse uma língua antiga que só nós falamos.
A Isabel é assim. Sabe quando o doutoramento pesa mais do que devia, quando o trabalho pede uma espera que ninguém ensina a fazer, quando a vida insiste em ser vivida — não planeada, não organizada, mas vivida, simplesmente. E então puxa-me para fora da rotina como quem salva um livro esquecido numa estante alta.
Às vezes é um congresso, outras vezes é apenas um passeio. Mas há sempre um abraço — desses que não pedem licença — e uma generosidade que não se explica. Não importa o oceano que nos separa nos outros dias; quando vem ao continente, há sempre um pedaço de tempo guardado para mim. Como se a amizade fosse isso: uma reserva silenciosa de presença.
Conhecemo-nos no mesmo percurso académico, entre cadeiras difíceis e professores que nos ficaram na memória. Rimos muito — às vezes mais do que estudámos, o que, olhando agora, talvez tenha sido a melhor estratégia de todas. Sei que sem ela o doutoramento teria sido mais cinzento, mais pesado, mais sozinho.
A Isabel é luz — não aquela luz que encandeia, mas a que aquece devagar. Faz-me rir com facilidade, como se o mundo fosse um lugar mais simples quando estamos juntas. Partilhamos gostos, rituais, pequenos exageros felizes: o gin, as mimosas, e aquela tradição só nossa antes de cada congresso, como se fosse um amuleto invisível contra o nervosismo.
Hoje foi um dia bonito. De uma Lisboa que adoro, desenhada pela luz do Tejo que, tenho a certeza, ainda me conhece bem.
Regresso a casa mais leve. Como se tivesse deixado para trás, algures entre uma conversa e um gole de gin, o peso dos dias que insistem tantas vezes em ser sérios demais.
Amanhã regresso às rotinas, aos meus meninos e à nossa matemática…
PB
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