Há sempre um “depois”

Há sempre um “depois”.

Dizemos isso com uma leveza quase inocente, como quem guarda o tempo numa gaveta segura, convencido de que ele não se move sem a nossa autorização. Depois faço. Depois digo. Depois volto. Depois explico. Depois vivo.

O “depois” é uma promessa confortável — mas também uma ilusão subtil.

Porque o tempo não espera. Nunca esperou.

Há um momento — que não sabemos nomear — em que o depois deixa de ser futuro e passa a ser ausência. Um lugar onde já não chegamos, mesmo que quiséssemos muito. E, talvez por isso, o depois seja sempre uma espécie de território incerto, onde depositamos aquilo que não conseguimos — ou não temos coragem — de viver agora.

Há coisas que ficam sempre para depois.

Palavras que não dissemos. Gestos que adiámos. Vidas que deixámos por começar. E há um silêncio que cresce à volta dessas escolhas, como se o tempo fosse acumulando tudo aquilo que não fomos.

Pergunto-me, às vezes, se uma vida chega.

Se chega para tudo o que sentimos. Para tudo o que queremos ser. Para todas as versões de nós que nunca chegámos a experimentar. Talvez não. Talvez uma vida seja apenas um ensaio imperfeito de tudo o que poderíamos ter vivido com mais coragem.

E depois há o adeus.

Esse inevitável depois de todos os depois. Aquele que não admite retorno, nem reescrita, nem tentativa de correção. O adeus não tem margem. Não aceita atrasos. Não aceita “depois”.

E então fica a pergunta — talvez a única que realmente importa:

Quem fica no depois do depois?

Ficam as memórias, talvez. As versões que os outros guardam de nós. Ficam os fragmentos de quem fomos, espalhados em gestos, palavras, silêncios. Fica aquilo que conseguimos tocar — e aquilo que deixámos escapar.

Mas, acima de tudo, fica a ausência do que não vivemos.

E talvez seja por isso que o depois assusta tanto quando pensamos verdadeiramente nele. Porque nos obriga a reconhecer que o tempo não é infinito, que as oportunidades não se repetem sempre, que a vida não está à espera de ser adiada.

Talvez o depois não seja um lugar.

Talvez seja um aviso.

Um sussurro constante a dizer-nos que o agora é o único tempo que realmente temos. Que aquilo que não fizermos hoje corre o risco de nunca existir.

E, no fundo, talvez a pergunta nunca tenha sido “o que vem depois?”

Talvez a pergunta certa seja:

o que estamos a fazer antes que o depois deixe de existir?

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