Há sempre alguém a dizer “aproveita para descansar”.

Há sempre alguém a dizer “aproveita para descansar”.

Dizem-no com doçura, com boa intenção, com uma leveza quase terapêutica, como se descansar fosse uma atividade simples, acessível e imediatamente disponível, à semelhança de beber um copo de água ou abrir uma janela.

“Agora nas férias, aproveita para descansar.”

“Durante a pausa, vê se desligas.”

“No fim de semana, não faças nada.”

Não faças nada. Esta frase, para certas pessoas, soa a conselho. Para outras, soa a ficção científica.

Eu gosto muito da ideia de descansar. Acho-a nobre. Civilizada. Quase poética. Gosto da imagem mental de mim própria serena, desacelerada, com tempo, sol, silêncio e talvez um chá bonito numa chávena igualmente bonita. O problema é que, entre essa imagem e a realidade, costuma haver roupa para tratar, coisas para organizar, mensagens para responder, aulas para preparar, listas para rever, ideias que aparecem fora de horas e uma certa dificuldade estrutural em convencer o cérebro de que já pode sair de cena.

Descansar, para muitas pessoas, não é uma decisão. É uma competência. E eu suspeito que nem todos nascemos com ela igualmente desenvolvida.

Há quem desligue com admirável facilidade. Fecha o computador, pousa o telefone e entra numa espécie de repouso merecido, limpo, quase profissional. Eu tenho, por vezes, a sensação de que mesmo quando paro continuo ligada por dentro. Como aquelas luzes pequeninas dos aparelhos em standby, que parecem apagadas, mas não estão bem.

Depois há a culpa. A velha e eficientíssima culpa. Essa entidade sempre pronta a insinuar que, já que agora há tempo, talvez fosse boa ideia adiantar qualquer coisa útil. Só uma coisinha. Uma arrumação rápida. Uma resposta breve. Uma organizaçãozinha de papéis. Um planeamento leve. Um olhar discreto para a semana seguinte. E quando damos por isso, estamos a descansar com muita aplicação, mas pouco descanso.

Ainda assim, a verdade é que o corpo vai dizendo coisas. A cabeça também. Há um cansaço que não melhora com uma noite de sono nem com duas horas de sofá distraído. E talvez seja por isso que esta frase — “aproveita para descansar” — apesar de irritante em certos contextos, tenha qualquer coisa de sábio. Porque descansar não é preguiça, nem luxo, nem desleixo. É manutenção profunda. É higiene da alma. É condição de sobrevivência para quem vive demasiado tempo em modo de resposta rápida.

Ainda assim, vou tentando. Faço respirações profundas. Bebo café devagar. Às vezes até me sento ao sol com a firme intenção de não fazer nada. Nem sempre corre bem, mas a intenção está lá, que já é uma forma de descanso moral.

Talvez o problema esteja na expressão “aproveita”. Como se o descanso tivesse de ser produtivo, bem gerido, corretamente usufruído. Como se até a pausa pudesse falhar por falta de desempenho.

Talvez fosse melhor dizer de outra maneira. Talvez o que precisemos de ouvir seja: abranda. Não proves nada. Não organizes tudo. Não transformes até o repouso numa tarefa bem executada.

Eu continuo a aprender isso. Nem sempre com brilhantismo. Mas vou tentando. Respirar mais devagar. Fazer menos. Aceitar que nem tudo tem de ser resolvido hoje. E reconhecer que, às vezes, descansar não é fazer nada de extraordinário — é simplesmente deixar de empurrar o mundo por algumas horas.

PB

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