Há dias ....

Há dias em que o mundo parece escrito a lápis.

Sem cor definida, sem contornos firmes. Como se alguém tivesse passado uma borracha suave por cima de tudo — das vontades, dos planos, até das pequenas alegrias que costumam fazer barulho dentro de nós.

Há dias em que acordo e não há nada de errado. E isso, curiosamente, também não ajuda.

Está tudo no lugar. As pessoas continuam a ser quem são. O dia acontece como sempre acontece. Mas eu… eu não estou exatamente aqui. Ou estou, mas de forma mais leve, mais distante, como quem observa a própria vida através de um vidro ligeiramente embaciado.

Há dias assim.

Dias cinzentos, sem tempestade nem sol — apenas uma espécie de nevoeiro que se instala por dentro. Não acontece nada de errado, ninguém disse nada que magoe, nada correu particularmente mal… e, ainda assim, há qualquer coisa desalinhada. Um silêncio estranho. Uma falta de brilho difícil de explicar.

São dias de sentimentos turvos, de energia baixa, de vontade pouca. Dias em que nada entusiasma verdadeiramente, em que tudo parece mais pesado do que devia. Falta aquele impulso, aquela faísca que nos faz levantar com vontade, agarrar o dia, sentir que há algo à nossa espera.

Não sei bem o quê. Talvez um desafio. Talvez uma centelha. Talvez aquele instante raro em que os olhos brilham sem esforço e o corpo acompanha. Falta-me essa urgência boa de viver, essa curiosidade quase infantil que nos puxa para a frente.

Talvez estes dias também sejam necessários — não para nos derrubar, mas para nos abrandar. Para nos obrigar a escutar o que, no ruído dos dias bons, passa despercebido. Para nos lembrar que nem sempre é preciso estar bem, produtivo, entusiasmado.

Há dias em que basta existir.

Respirar devagar. Aceitar o silêncio. Dar espaço ao que sentimos, sem pressa de resolver, sem necessidade de entender tudo. Porque, de alguma forma, sabemos — mesmo que não pareça — que isto também passa.

Não é um dia mau. Não é um dia bom. É um dia assim — em tom menor, como uma música que não chega a crescer, mas também não desaparece.

Talvez todos tenhamos dias assim.

Dias em que não queremos conquistar nada, provar nada, resolver nada. Dias em que existir já é suficiente, mesmo que essa existência venha envolta numa espécie de névoa suave.

Talvez seja só isso.

Um intervalo.

Um espaço entre o que fomos e o que voltaremos a ser. Um lugar onde não há brilho, mas também não há queda. Apenas uma pausa estranha, silenciosa, onde nos encontramos connosco — sem filtros, sem distrações.

Há dias em que basta existir.

Respirar devagar. Aceitar o silêncio. Dar espaço ao que sentimos, sem pressa de resolver, sem necessidade de entender tudo. Porque, de alguma forma, sabemos — mesmo que não pareça — que isto também passa.

E que, depois destes dias meio… chochos, meio tristes, há de voltar qualquer coisa.

Uma luz. Um entusiasmo. Um brilho no olhar.

Mas, por agora, está tudo bem em ser só isto. Em não querer ser mais nada. Em só fechar os olhos e dormir…

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