Entre teoremas e equações

Começo o dia cedo, a ensinar Matemática. Às oito chega o primeiro aluno, e chega com aquela frescura quase improvável de quem ainda não foi vencido pelo peso do mundo. Sem sono. Enérgico. Bem-disposto. Com vontade de aprender. E eu, que já venho acordada há muito mais tempo do que o relógio sugere, reconheço logo essa espécie de milagre pequeno que é encontrar alguém com vontade de saber. Aqui, felizmente, nunca falta vontade de ensinar.

Sentamo-nos lado a lado, como quem não vem apenas resolver exercícios, mas repartir uma travessia. E talvez ensinar seja isso: não conduzir de cima, mas acompanhar por dentro. Partilhar uma mesa, um caderno, um raciocínio, uma dificuldade, um silêncio. Partilhar o erro sem vergonha e a descoberta sem alarde. Partilhar a vida, no fundo, porque há sempre qualquer coisa de muito humana no instante em que alguém diz “já percebi” e o rosto se ilumina como se por dentro tivesse acendido uma janela.

Talvez a nossa relação com a Matemática devesse ser sempre assim: não uma guerra, não uma sentença, não um muro. Mas um encontro. Uma conversa exigente, sim, às vezes dura, às vezes teimosa, mas ainda assim uma conversa. A aprendizagem, no seu melhor, parece-se menos com uma corrida e mais com isto: duas pessoas sentadas lado a lado, uma a tentar mostrar que há caminhos, a outra a descobrir que afinal consegue percorrê-los.

A primeira aula termina e chega outro aluno. E depois outro. E mais outro. E o dia começa a mover-se como uma maré mansa, feita de entradas e saídas, mochilas, cadernos, vozes, perguntas, risos, suspiros, contas, fórmulas e pequenas vitórias. Há sorrisos que chegam largos, quase festivos. Outros entram mais tímidos, com o medo escondido atrás dos olhos. Uns trazem mais vontade de trabalhar do que outros, é verdade, mas todos levam qualquer coisa consigo quando saem. Saem um pouco mais leves. Um pouco mais confiantes. Um pouco mais capazes. E, às vezes, basta esse pouco para mudar um dia, uma semana, uma vida inteira.

Pelo meio, recebo abraços. Muitos. E retribuo-os, porque aprender também é isto: receber e devolver. Acolher e acompanhar. Dar de nós para que o outro cresça sem sentir que cresce sozinho. Há abraços de gratidão, abraços de costume, abraços rápidos, abraços demorados, abraços de quem ainda não sabe explicar o que sente mas sabe que o sente. E eu penso muitas vezes que há coisas que não cabem num plano de aula. Nenhuma pedagogia escrita em papel consegue dizer tudo sobre o valor de um abraço dado no fim de uma explicação difícil.

Ensinar nunca é apenas explicar matéria. É estar. É acreditar. É cuidar. É repetir de vinte maneiras diferentes até encontrar a fresta por onde o entendimento entra. É reconhecer que nem todos chegam da mesma maneira à mesma porta. É perceber que, por vezes, antes da equação, é preciso resolver o medo. Antes do exercício, desarmar a pressa. Antes da resposta certa, devolver àquele aluno a ideia de que ele pode.

E no entanto, enquanto o dia avança, acumulam-se outras coisas à minha volta como folhas trazidas pelo vento para um canto da casa: leituras que devia estar a fazer, páginas de tese por escrever, pensamentos por arrumar, tarefas adiadas, mensagens por responder, uma vida pessoal a pedir ordem, gavetas interiores que exigiam mais tempo, mais pausa, mais cuidado. Há sempre algo que falha nesta minha equação. Somo mais do que divido e, no fim, subtraio ainda mais ao tempo que devia dedicar a mim mesma. Como se o dia fosse uma conta feita com generosidade a mais e repouso a menos.

Mas talvez eu não saiba viver de outra forma.

Porque a vida, para mim, nunca foi uma posse; foi sempre uma oferta. E eu creio, com uma espécie de fé tranquila, que a minha ganhou sentido por ser dada. Dada sem cálculo, sem medida exata, sem pedir garantias de retorno. Dou-a aos que chegam: aos alunos, aos amigos, aos pais que entram tímidos e acabam por ficar, aos rostos novos que se tornam familiares, às histórias que se cruzam com a minha e nela deixam marca. Todos os anos acrescento nomes à minha lista de afetos, como quem alarga a mesa sem se queixar da falta de espaço. E é curioso: quanto mais dou, mais inteira me sinto.

Não me deixo para trás. Apenas me encontro nesta forma de existir para os outros. Acolho-me na dimensão em que me dou. E há uma verdade muito funda nisto, qualquer coisa que já não sei explicar sem soar excessiva: sou verdadeiramente realizada e feliz. Não porque tudo esteja em equilíbrio, não porque a vida seja simples, não porque o cansaço não exista — existe, e muito —, mas porque há uma coerência secreta entre aquilo que sou e aquilo que entrego. Como se o meu lugar no mundo fosse precisamente este: fazer do conhecimento uma casa habitável para quem entra.

E depois acontecem essas visitas inesperadas que parecem vir de um lugar mais fundo do que a memória. Ex-alunos que regressam. Alguns já trazem pela mão os filhos. Outros trazem-nos ao colo. E nesses momentos o tempo dobra-se sobre si próprio de uma maneira quase sagrada. Olho para eles e vejo, ao mesmo tempo, quem foram e quem são. Vejo o adolescente inseguro, a criança distraída, o jovem aflito com exames, e vejo agora o adulto, o pai, a mãe, a vida continuada. E penso que o tempo, afinal, não passa: transforma-se. Fica a circular dentro de nós com outros nomes, outros rostos, outras vozes.

Quando isso acontece, o dia ganha ainda mais brilho. E eu sinto outra vez, com uma nitidez sem defesa, que ensinar é isto também: partilhar, acolher, dar e receber. Semear num tempo que não é o nosso e ter, de vez em quando, a graça de ver o pomar.

O dia termina tarde, pelas nove e meia da noite, aqui na minha sala. Mas não acaba realmente ali. Prolonga-se em casa, entre cadernos, leituras, páginas da tese, ideias soltas, listas mentais, mais silêncio do que seria aconselhável, até perto das duas, das três da manhã. Há qualquer coisa de excessivo nesta forma de viver, eu sei. Mas também há qualquer coisa de profundamente vivo.

E amanhã será um novo dia. Recomeçaremos.

Talvez a existência seja isto: uma sucessão de recomeços iluminados por pequenos gestos de sentido. Um aluno que percebe. Um abraço inesperado. Um ex-aluno que volta. Um filho trazido pela mão. Uma conta que bate certa no coração, mesmo quando falha no relógio. O mundo, visto de fora, poderá chamar-lhe rotina. Mas eu sei que não é. É uma forma de amor.

E há amores que não precisam de ser ditos em voz alta para sustentarem uma vida inteira.

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