🐾 A Emília não estuda — e talvez esteja certa

A Emília nunca abriu um livro. Nunca fez um resumo. Nunca sublinhou uma linha.

E, ainda assim, domina a arte mais difícil de todas: estar.

Enquanto nós corremos atrás de prazos, listas de tarefas e objetivos por cumprir, ela escolhe um casaco esquecido, uma mochila abandonada, e dorme como se o mundo estivesse resolvido.

Talvez não esteja.
Mas talvez também não precise de estar já.

A Emília não tem pressa.
Não se compara.
Não sente culpa por parar.

E isso, num mundo como o nosso, é quase revolucionário.

Na academia, tornou-se um pouco de todos.
Pede colo aos alunos com uma naturalidade desconcertante, instala-se sem pedir licença e fica — como se soubesse exatamente quando alguém precisa de abrandar.

Há dias em que interrompe o estudo.
Deita-se em cima de cadernos, ocupa teclados, escolhe exatamente o espaço onde alguém ia começar a trabalhar.

Se fosse avaliada, seria provavelmente a pior aluna da turma.
Na matemática, então, um desastre absoluto.

Dorme durante as “aulas”, ignora qualquer tentativa de raciocínio lógico e não demonstra o menor interesse por números, fórmulas ou problemas.

E, no entanto, talvez esteja a ensinar mais do que parece.

Porque a Emília lembra-nos de algo que esquecemos facilmente:
não somos máquinas de produzir resultados.

Aprender não é só fazer, resolver, cumprir.
Também é parar.
Também é respirar.
Também é estar.

Num tempo em que tudo é urgente, ela escolhe o tempo lento.
Num espaço onde todos tentam acompanhar, ela simplesmente permanece.

E há uma sabedoria silenciosa nisso.

Talvez não esteja tudo resolvido.
Mas talvez nem tudo precise de estar resolvido agora.

E talvez aprender também seja isto:
saber quando continuar
e quando, simplesmente, nos podemos deitar um pouco —
mesmo que seja em cima de um casaco que não é nosso. 🐾

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