Dia 1 e meio

Depois da longa viagem de ontem — 5h30 que, confesso, não me souberam nada mal — acordei hoje com a sensação rara de quem descansou a sério. E digo “rara” com a solenidade que o momento merece, porque dormir como uma pedra, numa vida em que a cabeça costuma insistir em continuar acordada mesmo quando o corpo já desistiu, é quase um acontecimento científico.

Mas a verdade é que aquelas 5h30 de estrada tiveram qualquer coisa de inesperadamente precioso. Foram 5h30 de silêncio, a sós com os meus botões, o que hoje em dia quase parece uma experiência de luxo. Cinco horas e meia sem resolver uma conta, sem apagar um incêndio, sem ter de decidir nada urgente, sem ouvir o meu nome de cinco em cinco minutos, sem aquele ruído de fundo — exterior e interior — que tantas vezes nos acompanha sem pedirmos licença. Cinco horas e meia só comigo. Um luxo, direi. Um retiro espiritual em versão rodoviária.

Depois, claro, veio o jantar animado, as conversas boas, as gargalhadas certas, aquela alegria leve de quem chega cansado, mas chega bem. E talvez por isso hoje o despertar tenha sido tão sereno: cedo, com vontade de respirar fundo, encher os pulmões deste ar puro e bonito, e começar os trabalhos com a alma mais arrumada.

Há qualquer coisa de especial em estarmos todos juntos. Em conhecer pessoas novas, reencontrar outras, cruzar percursos, escutar ideias, aprender com quem sabe muito e também com quem pergunta bem. Gosto sempre desta sensação de comunidade provisória e intensa, feita de pensamento, curiosidade e presença. Durante uns dias, o mundo encolhe para caber num mesmo espaço, e isso tem qualquer coisa de mágico: estamos ali, cada um com o seu caminho, mas todos reunidos pelo mesmo desejo de compreender mais e melhor.

E é bonito perceber que a aprendizagem acontece assim, entre o formal e o humano, entre a mesa de trabalho e a conversa de corredor, entre aquilo que se ouve nas sessões e aquilo que se leva no coração. Aprende-se nos painéis, claro, mas também nos encontros, nos reencontros, nas pausas, no entusiasmo partilhado, no brilho dos olhos de quem fala de um tema que ama.

Por isso, este dia 1 e meio sabe a isso: a privilégio. A cansaço bom. A silêncio que fez bem. A descanso merecido. A ar puro. A trabalho com sentido. E a esta alegria tranquila de estar exatamente onde se deve estar, com as pessoas certas, entre pensamento, escuta e vontade de crescer.

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