As pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes

A humanidade divide-se, de forma geral, em três grandes grupos: as pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes.

As pessoas da manhã são aquelas criaturas luminosas, moralmente superiores que, antes das sete da manhã, já beberam água morna com limão, abriram as janelas, responderam a dois emails e talvez até tenham tido uma breve epifania enquanto arrumavam a máquina da loiça. Acordam cedo por inclinação natural, o que já levanta suspeitas. Às sete da manhã têm bom aspeto, boa disposição e, por vezes, até gratidão. Há nelas uma serenidade irritante. Gostam de dizer coisas como “o dia rende tanto quando começamos cedo” com a mesma naturalidade com que outras pessoas dizem “passa-me o açúcar”. São capazes de responder a mensagens importantes antes das oito, apanhar sol na varanda e ainda sentir que estão atrasadas para chegar a algum lado.

Depois há as pessoas da noite. Essas eu respeito profundamente. Têm um lado dramático, produtivo e quase cinematográfico. Passam o dia em modo económico e, quando chega a noite, florescem. Às onze da noite ainda estão a organizar ideias, a começar projetos, a responder a emails com uma clareza impressionante e, se for preciso, a mudar de vida.

E depois há os sobreviventes. Eu.

Eu deito-me tarde e acordo cedo. Não porque seja especialmente virtuosa, organizada ou dona de uma disciplina admirável. Nada disso. Acontece-me. Sou um animal em vias de extinção. Uma pessoa que estica a noite porque ainda há coisas para fazer, para pensar, para acabar, para preparar — e que, apesar disso, acorda cedo porque a vida não quer saber do que eu fiz às 04h47.

Nós, os sobreviventes, vivemos num estado intermédio muito específico: nunca descansamos o suficiente para sermos luminosos, mas também nunca temos o ar boémio das pessoas verdadeiramente noturnas. Funcionamos a café, agenda, sentido de dever e uma fé comovente em frases como “logo recupero”. Não recuperamos. Mas gostamos de acreditar nisso.

Há qualquer coisa de heróico — e ligeiramente absurdo — nesta forma de existir. Conseguimos dar aulas, trabalhar, estudar, cuidar de filhos, fazer listas, cumprir prazos e, pelo meio, ter conversas absolutamente normais (aparentemente), enquanto por dentro o cérebro só pede uma almofada e cinco anos sabáticos.

Para me equilibrar, faço ioga e pilates, numa tentativa respeitável de manter alguma compostura física, emocional e espiritual. Respiro fundo, alongo, alinho a coluna, procuro o meu centro e tento, com toda a dignidade possível, não adormecer no tapete de meditação. Nem sempre com sucesso absoluto, convém dizer.

Temos olheiras com profundidade académica. Temos uma relação emocional com chá, café e silêncio. Temos o dom de parecer funcionais quando, na verdade, estamos só muito bem treinados na arte de não colapsar em público.

Ainda assim, há uma dignidade nisto. Uma dignidade cansada, é certo, mas dignidade. Porque os sobreviventes conhecem o valor das pequenas vitórias: uma tarde em que tudo correu bem, uma noite com mais de seis horas de sono, um dia em que ninguém nos pede nada depois das 22h30.

No fundo, talvez sejamos apenas isso: pessoas a fazer o melhor que podemos entre o que o corpo pede e o que a vida exige. E talvez o humor seja uma das formas mais elegantes de sobreviver a essa diferença.

Eu, por mim, continuo nesse lugar híbrido e pouco glamoroso. Deito-me tarde, acordo cedo e atravesso os dias com a bravura possível. Não sou propriamente uma pessoa da manhã. Também não sou, com rigor científico, uma pessoa da noite. Sou outra coisa. Uma categoria à parte. Uma espécie resistente. Um pequeno ser funcional (embora, às vezes, confesso, com muito sono).

PB

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