As nossas pequenas metamorfoses

Às vezes penso que passamos a vida inteira a transformar-nos.

Não de forma brusca ou assustadora como na história de Kafka, em que um homem acorda de repente transformado numa criatura estranha e irreconhecível.

Não, as nossas metamorfoses são mais discretas.

Acontecem devagar e quase sempre sem ruído.

Um dia acordamos e percebemos que algo mudou dentro de nós. Já não pensamos exatamente da mesma maneira. Já não reagimos com a mesma urgência e certas coisas que antes nos magoavam profundamente agora passam por nós como uma chuva leve.

Não foi num instante, foi aos poucos, suavemente.

Um desapontamento aqui, uma alegria ali, uma perda, um reencontro, uma conversa que ficou a ecoar dentro da cabeça durante dias.

E sem darmos conta, vamos mudando.

Há versões antigas de nós que ficaram pelo caminho.

A pessoa que fomos aos vinte anos já não existe exatamente. Nem a pessoa que fomos aos trinta. Nem aquela que acreditava que tudo tinha de fazer sentido imediatamente.

Hoje sei que muitas das nossas metamorfoses nascem do tempo.

O tempo tira-nos algumas ilusões, mas oferece-nos outras coisas mais raras: alguma serenidade, um pouco de perspectiva, a capacidade de escolher melhor as batalhas que realmente merecem a nossa energia.

E talvez crescer seja isto: aprender a reconhecer que somos feitos de muitas versões de nós próprios, de muitas e diferentes camadas.

Algumas mais ingénuas.
Algumas mais corajosas.
Algumas mais cansadas.
E outras surpreendentemente mais sábias.

Mas as nossas transformações, por mais leves ou profundas que sejam, não nos afastam da humanidade. Pelo contrário. Aproximam-nos dela.

Porque cada mudança traz consigo uma compreensão nova — sobre os outros, sobre o mundo e, sobretudo, sobre quem somos.

No fundo, talvez a vida seja exatamente isto: uma sucessão de pequenas metamorfoses silenciosas.

E no meio delas, ou através delas, vamos tentando aprender a habitar, com alguma ternura, todas as versões de nós que já fomos.

PB ✨

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