Alfândega da Fé
Às 6h20 da manhã, a viagem começou como começam as coisas importantes: ainda com o dia por nascer e já com a alma a adiantar-se ao corpo. Houve uma paragem no Porto, depois a estrada seguiu até Macedo de Cavaleiros, e aí aconteceu uma dessas pequenas alegrias que fazem o caminho parecer mais curto: o reencontro com uma amiga. A partir desse momento, já não íamos apenas para um seminário; íamos juntas para dentro de três dias feitos de estudo, trabalho, escuta, perguntas e aprendizagem. E talvez seja isso a educação no seu estado mais bonito: não um lugar onde se chega com respostas fechadas, mas um espaço onde se caminha acompanhado, disponível para pensar melhor.
Alfândega da Fé recebe-nos assim, como quem sabe que a beleza não precisa de levantar a voz. No Nordeste Transmontano, entre a Serra de Bornes e o rio Sabor, esta terra parece guardar uma espécie de sabedoria antiga, feita de montes, vales e horizonte. É uma vila pequena, mas cheia de presença, onde o passado ainda aparece nas ruas e nos detalhes, e onde a paisagem não é apenas cenário: é uma forma de nos ensinar a abrandar, a reparar, a escutar.
Há um verde aqui que não se impõe — acolhe. Um verde que sobe pela serra, que se demora nos campos, que se abre em caminhos e em silêncio. A própria terra convida ao encontro entre natureza e cultura, e há qualquer coisa de profundamente sereno nesta maneira de juntar beleza, calma e vida sem artifício. Talvez por isso faça tanto sentido falar aqui de ecologias educativas globais, de cidadania, de transformação digital e de desenvolvimento local. Porque este não é apenas um lugar bonito: é um lugar que nos lembra que aprender é sempre ligar mundos.
Ligar o local ao global. Ligar a tecnologia ao humano. Ligar o conhecimento à responsabilidade. Ligar a pergunta à escuta. E, nesse sentido, há qualquer coisa de profundamente pedagógico em estar aqui: como se a própria paisagem dissesse, em voz baixa, que ninguém aprende sozinho e que todo o verdadeiro saber nasce de uma relação — com os outros, com o território, com o tempo, com a vida.
Nestes dias, entre dezenas de investigadores, professores que tanto estimo e admiro, colegas de doutoramento e conversas que nos desafiam por dentro, sinto exatamente isso: o privilégio de estar num lugar onde pensar ainda é um gesto vivo. Um lugar onde ouvir também é trabalhar. Onde questionar também é construir. Onde aprender não é acumular, mas transformar-se.
E depois há a outra aprendizagem, a que não vem dos painéis nem das conferências, mas dos afetos. Mais tarde chegarão outras colegas, vindas de longe só para estarem comigo e matar saudades. Somos amigas de Erasmus, e há nisso uma espécie de milagre discreto: Veneza uniu-nos, e nem a distância nem o tempo conseguiram desfazer o que ali começou. Há amizades assim — não resistem apenas ao tempo, amadurecem com ele. E quando nos reencontramos, percebemos que algumas pessoas continuam a ser casa.
Esta é a minha segunda vez em Alfândega da Fé, e volto a sentir o mesmo: é sempre um gosto estar aqui. Não apenas pela beleza da terra, ou pela gentileza com que somos recebidos, mas porque há lugares que nos recebem por fora e nos arrumam por dentro. Alfândega da Fé tem qualquer coisa disso. Talvez seja da serra. Talvez seja da luz. Talvez seja das pessoas. Ou talvez seja dessa verdade simples que a boa pedagogia conhece tão bem: aprender também é pertencer.