A verdade da mentira

Ser verdadeira é ter coragem.

Coragem de dizer — sem filtros nem disfarces — que não, nem todos os dias brilham do mesmo modo. Que não, nem sempre estou a mil, cheia de energia, entusiasmo e certezas. E, ainda assim… está tudo bem.

Há uma honestidade tranquila em assumir isso. Uma espécie de libertação silenciosa que acontece quando deixamos de fingir que somos sempre fortes, sempre produtivos, sempre certos.

Ser de verdade é isto: não ter medo de abraçar o caos.

O caos dos dias imperfeitos, das dúvidas que chegam sem aviso, dos medos que se instalam sem pedir licença. É aceitar a vida como ela é — inteira, crua, às vezes contraditória. Com problemas, dissabores, incongruências e aquelas pequenas rasteiras que nos fazem tropeçar quando achávamos que já sabíamos o caminho.

Viver não é estar sempre bem.

É continuar mesmo quando não estamos.

É sentir ansiedade por coisas pequenas — e não fingir que não sentimos. É reconhecer o aperto no peito, a inquietação, a vontade de parar — e ainda assim seguir, com cuidado, com respeito por nós.

Sem vergonha.

Porque há uma força imensa em quem não se esconde. Em quem se permite sentir tudo — o bom e o difícil — sem transformar isso numa falha.

Mas depois há o outro lado.

O lado onde, curiosamente, já não sabemos ser verdadeiros — sobretudo com as crianças.

Protegemo-las das verdades da vida como se sentir fosse perigoso. Não se diz que se está triste. Não se assume que se chora. Não se fala da morte. Diz-se que alguém “foi fazer uma viagem”, como se o silêncio pudesse suavizar a ausência.

Parece haver um certo pudor em dizer: “sim, a mãe está triste”. “Sim, estou de luto”. “Sim, tenho ansiedade e não estou a lidar bem com isto”.

Em vez disso, finge-se estar sempre bem.

E nesse faz-de-conta vamos retirando às crianças a possibilidade de compreender o mundo como ele é. De sentir, de se posicionar, de construir dentro de si defesas, estrutura, humanidade.

Até quando?

Até quando vamos continuar a protegê-las tanto que as impedimos de crescer por dentro? Até quando vamos ocupar-lhes os dias com tarefas, horários e estímulos, como se o vazio fosse um perigo — quando, na verdade, é no vazio que nascem a imaginação, a reflexão, a capacidade de criar?

É preciso tempo para sentir. Para desanimar. Para inventar. Para não saber o que fazer. Para pensar.

Mas estamos a criar outra coisa.

Autómatos. Corpos em movimento constante, mas com pouca escuta interior. Máquinas de fazer, não de sentir.

Vivemos numa narrativa confortável onde o mundo parece perfeito. Onde a fome, a guerra, a injustiça e a violência existem apenas longe — em países sem rosto, em histórias que não nos tocam diretamente. Quando, tantas vezes, tudo isso acontece perto de nós, de formas mais silenciosas, mais invisíveis, mas igualmente reais.

Há muitas formas de guerra. Muitas formas de violência.

E, no entanto, continuamos a esconder.

Com a desculpa de que “é muito sensível”, vamos criando seres frágeis, flores de estufa, protegidas de tudo — menos da própria vida que um dia terão de enfrentar.

E então fica a pergunta, que talvez nos incomode mais do que gostaríamos:

sensível… ou frágil?

Sensível… ou sem estrutura para lidar com o mundo?

Talvez a verdadeira proteção não esteja em esconder.

Mas em acompanhar. Em nomear. Em estar presente quando a vida mostra o seu lado mais difícil.

Porque ser verdadeiro — connosco e com os outros — é, no fundo, a forma mais profunda de cuidar.

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