A sexta-feira mais ansiada
Há semanas que a espero como quem espera o sol depois de um inverno demasiado comprido. Há três semanas que não vejo a minha filha, e hoje ela regressa a casa. Digo “regressa a casa”, mas a verdade é que há pessoas que, quando voltam, não entram apenas por uma porta: devolvem-nos um pedaço inteiro de nós. E é isso que sinto. Como se o dia de hoje trouxesse consigo qualquer coisa de reencontro, de recomposição, de respiração funda.
Mal posso esperar pelo abraço. Pelo colinho que lhe vou dar, mesmo sabendo que o tempo passou, que a vida andou para a frente, que os anos fizeram o seu trabalho. Há criaturas que nunca deixam de caber no colo da mãe, e talvez o amor seja isso mesmo: uma espécie de geografia afetiva onde o tamanho nunca conta para nada. Continuas a caber no meu colo como quando eras pequenina, embora agora tragas o mundo nos olhos e uma vida inteira a crescer dentro de ti.
Espero pelas nossas conversas sem relógio, aquelas que atravessam a noite e se demoram como se o sono pudesse esperar. Espero pela companhia no estudo, pelos cafés que havemos de beber, um atrás do outro, não tanto pela cafeína, mas pelo ritual de nos sentarmos à mesa e partilharmos a vida como quem reparte pão. Falaremos do que pesa, do que entusiasma, do que inquieta, do que sonhamos. Desabafaremos o que nos ocupa a mente, como quem abre janelas numa casa fechada há demasiado tempo.
O tempo que temos nem sempre é muito. Mas há pessoas com quem o tempo rende. E tu és dessas pessoas raras. Fazemos muito com pouco. E mesmo nos dias cheios, mesmo nas agendas apertadas, arranjamos sempre maneira de ter tempo para conversar e para estar. Estar, esse verbo tão simples e tão difícil. Estar verdadeiramente, com presença inteira, sem distrações da alma. Talvez uma das maiores provas de amor seja essa: dar tempo. Não o tempo que sobra, mas o tempo que se escolhe dar.
Não há, no entanto, fins de semana perfeitos. Neste, volta a filha, mas o filho mais velho não estará. E a alegria, mesmo sendo grande, traz dentro dela uma pequena dobra de falta. Há uma sensação estranha de incompletude, como se metade de mim se aproximasse e a outra metade ficasse em suspenso noutro lugar. Ser mãe talvez seja isto também: viver com o coração repartido e, ainda assim, inteiro. Aprender que a felicidade pode vir misturada com saudade. Saber que a mesa nunca está totalmente cheia quando falta um dos nossos.
Mas virão outros fins de semana. Haverá dias em que estaremos todos juntos, e então a alegria será mais redonda, mais cheia, mais parecida com essa ideia antiga e funda de plenitude. E eu estarei ainda mais feliz, porque estarei completa.
Mas hoje é o teu dia de voltar. E isso basta para que o mundo me pareça mais arrumado.
Gosto de ti de um modo que vai muito além do amor inevitável de mãe. Gosto de ti verdadeiramente. Gosto da pessoa que és. Da tua inteireza. Da tua beleza funda, essa beleza que não depende de traços nem de luz, porque vem do caráter, da delicadeza, da forma como olhas o mundo e te colocas nele. Há pessoas que nos orgulham pelo que fazem. Tu orgulhas-me pelo que és. E penso muitas vezes, com uma espécie de espanto comovido, que mesmo que não fosses minha filha, eu iria gostar de te conhecer. Ia reconhecer em ti qualquer coisa de raro. Ia querer sentar-me contigo a conversar. Ia gostar de ser tua amiga.
Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amar um filho já crescido: descobrir que, para além do laço de sangue, existe uma admiração serena pela pessoa que ele se tornou.
Passou tanto tempo desde os dias em que eras pequenina e partilhávamos Matemática. Há nessa memória uma ternura muito especial: cadernos abertos, contas por fazer, dúvidas, raciocínios, a paciência de explicar, a tua maneira de procurar entender. E agora és tu que me ensinas. Trazes-me mundos novos, coisas que eu não sei, perspetivas que não são as minhas, linguagens, ideias, formas de ver. E eu aprendo contigo a olhar de outro modo. A perceber que o mundo não muda apenas porque o tempo passa; muda também porque os filhos crescem e nos devolvem a realidade com olhos mais frescos, mais atentos, mais livres.
É um dos presentes mais bonitos da maternidade: perceber que, depois de termos sido abrigo, passamos também a ser aprendizes. Que os filhos não chegam apenas para serem guiados; chegam também para nos alargar. Para nos desafiar. Para nos ensinar novas perguntas. Para nos emprestar outros prismas, outras lentes, outras maneiras de ler a vida.
Entre nós há cumplicidade, gargalhadas, metas partilhadas, objetivos traçados. Há também essa confiança funda de quem sabe que pode dizer tudo porque o essencial será sempre compreendido. Talvez seja por isso que eu espere tanto por ti. Não apenas porque és minha filha. Mas porque contigo a casa respira de outra maneira. O silêncio muda de textura. O quotidiano ganha outra luz. E eu própria me reconheço melhor em certas partes de mim quando estás perto.
Hoje regressas. E eu, que já vivi tantos regressos e tantas partidas, continuo a comover-me como se fosse a primeira vez.
Hoje regressas a casa. E eu regressarei também, mais um pouco, a mim mesma.