Tenho o melhor colega do mundo
Há quem diga que trabalhar com quem se ama pode ser perigoso. Que a convivência excessiva desgasta. Que o mistério desaparece. Que o amor precisa de distância para respirar.
Talvez seja verdade para algumas pessoas.
Mas no nosso caso nunca foi assim.
Há mais de vinte anos que trabalhamos lado a lado. Não exatamente na mesma sala — cada um tem o seu território, como duas pequenas ilhas ligadas por uma ponte invisível.
Eu ensino Matemática. Ele vive entre a Física, a Química e a Geometria.
As nossas salas ficam próximas.
Às vezes, no meio de uma tarde cheia de equações, vetores ou reações químicas, um de nós aparece à porta da sala do outro.
Não para nada importante.
Apenas para perguntar, quase em voz baixa:
— Está tudo bem?
Às vezes é só isso.
Outras vezes é uma piada rápida, um comentário engraçado sobre qualquer coisa, um sorriso cúmplice que dura alguns segundos.
Depois cada um volta à sua sala, aos seus alunos, às suas explicações, às horas de trabalho que ainda faltam nesse dia.
E, no entanto, nesses pequenos momentos há uma espécie de tranquilidade difícil de explicar.
Como se soubéssemos que, mesmo no meio de todas as tarefas e responsabilidades, continuamos ali — próximos.
Há trinta anos que nos escolhemos.
Vinte desses anos passados a trabalhar lado a lado, a construir não apenas uma vida, mas também um lugar onde o pensamento cresce.
Uma Academia de Ciências parece, à primeira vista, um lugar de números, fórmulas e respostas certas.
Mas a verdade é que ali acontece algo muito maior.
Todos os anos entram pelas nossas portas dezenas e dezenas de crianças e adolescentes. Chegam com cadernos novos, mochilas pesadas, dúvidas antigas e aquela curiosidade inquieta que ainda não foi vencida pelo medo de errar.
Alguns acreditam que não são bons a matemática.
Outros acham que a física é um território impossível.
E nós começamos sempre do mesmo lugar: uma pergunta.
Porque ensinar não é apenas transmitir conhecimento.
Ensinar é abrir portas dentro da cabeça de alguém.
É mostrar que pensar pode ser uma aventura.
Que uma equação não é apenas um conjunto de símbolos — é uma forma de compreender o mundo.
Que uma lei da física é, no fundo, uma tentativa humana de conversar com o universo.
Ao longo dos anos fomos percebendo que aquilo que realmente fazemos ali não é apenas explicar matéria.
O que fazemos é ensinar a pensar.
A questionar.
A duvidar.
A procurar caminhos.
E talvez, sem nos apercebermos completamente disso, estamos a construir algo que já nos ultrapassa.
Todos os anos alguns daqueles alunos partem para universidades, laboratórios, hospitais, empresas, escolas.
Levam consigo muitas coisas.
Mas talvez a mais importante seja invisível: uma forma de olhar para o mundo.
A ideia de que compreender é possível.
De que pensar é uma ferramenta poderosa.
De que o futuro pode ser construído.
Talvez seja esse o verdadeiro trabalho de um professor.
Criar futuros.
E, no meio de tudo isto, estamos nós.
Dois professores que, por acaso, também são duas pessoas que se amam.
Partilhamos os dias entre explicações, quadros cheios de números, perguntas inesperadas de alunos e pequenas pausas entre aulas.
Sabemos quando o outro está cansado antes de o dizer.
Sabemos quando uma aula correu especialmente bem.
Sabemos quando é preciso apenas um café rápido, um silêncio breve ou uma frase leve para tornar o dia mais fácil.
O amor de muitos anos não vive apenas de grandes gestos.
Vive também destas pequenas rotinas. Destas perguntas simples. Destas presenças silenciosas.
Talvez seja isso que o tempo faz ao amor.
Retira-lhe algum do dramatismo do início e oferece-lhe algo melhor: uma espécie de paz. Uma ternura tranquila.
A paz de saber que estamos exatamente onde queremos estar e a certeza de que somos melhores porque somos uma equipa.
Às vezes, no meio de uma tarde cheia de números e fórmulas, olho para a porta da sala. E penso que há poucas coisas mais bonitas do que isto:
trabalhar todos os dias ao lado do amor da nossa vida enquanto, quase sem dar por isso, ajudamos a construir o pensamento de tantas outras vidas.
Talvez seja esse o verdadeiro legado. Não os exercícios resolvidos. Não os testes corrigidos. Mas as perguntas que deixámos nos outros.
E imagino que um dia, quando formos dois velhinhos que ainda discutem matemática, física e geometria, continuaremos a entrar na sala um do outro apenas para perguntar:
— Está tudo bem?
PB ✨
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