Sábado

O sábado começou cedo, ainda com a luz tímida da manhã a esticar-se pelas janelas. Às 9h já havia matemática no ar — números espalhados pela mesa, cadernos abertos, lápis inquietos. Mas havia também gargalhadas, dessas que nascem quando alguém finalmente percebe um problema ou quando uma resposta improvável faz todos parar para rir. Entre dúvidas e perguntas, entre afirmações corajosas e algumas certezas recém-descobertas, o tempo foi passando com aquela serenidade própria das manhãs dedicadas a aprender. Os grupos iam chegando e partindo, como pequenas marés: alunos de 10º, de 9º, de 11º… e também do 5º e 6º. Gente pequenina e gente grande, todos com o mesmo brilho nos olhos — esse desejo antigo e universal de compreender o mundo um pouco melhor. Porque aprender é também isto: construir devagarinho aquilo que ainda não sabemos que somos. A tarde caiu sem fazer barulho, como costumam cair as coisas boas. E com ela chegou o caminho para norte. Havia um encontro marcado com os meus filhos, uma surpresa guardada com cuidado — dessas que ninguém espera e que acabam por iluminar a noite inteira. Há festival de tunas. Há guitarras, vozes, passos apressados entre ruas de pedra. Há música e alguma boémia pela noite dentro. Há o Porto — cidade de abraços largos, que me recebe sempre como quem reconhece um regresso. O Porto tem qualquer coisa difícil de explicar. Talvez seja a forma como a cidade nos recebe, como se já nos conhecesse há muito tempo. Talvez sejam as ruas de pedra, a luz sobre o Douro, o cheiro a mar misturado com café e história. O Porto tem essa capacidade rara de nos fazer sentir em casa mesmo quando estamos apenas de passagem. Esta noite, a cidade veste-se ainda de mais música. Na Casa da Música há festival de tunas — e quem já viveu um momento assim sabe que não é apenas um espetáculo. É uma celebração. As capas negras, as guitarras, os bandolins, as vozes que se entrelaçam em serenatas e músicas sentidas. Há energia, juventude, tradição e uma alegria contagiante que se espalha pela sala e pelas ruas à volta. As tunas têm essa magia: misturam humor com nostalgia, irreverência com poesia. Cantam-se histórias, improvisam-se sorrisos, partilham-se noites que parecem durar um pouco mais do que as outras. Amanhã é Dia da Mulher, e pensando bem, não poderia estar noutro lugar. Nem com outras pessoas. Porque foi com eles que aprendi o essencial. Foram eles que fizeram de mim a mulher que sou hoje. Foram eles que me deram o meu papel mais bonito e o estado de alma mais feliz que conheço: ser mãe. ❤️

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