Querida M.

Hoje encontrei a menina M. no café da minha rua.

E há encontros assim — simples na forma, quase banais — mas que nos atravessam por dentro como se fossem feitos de outra matéria.

Falámos um pouco e, ainda assim, disse-se tanto. Há pequenas conversas que são mais profundas do que algumas longas.

Enquanto a ouvia pensei em como a vida, sem aviso, nos pode puxar o tapete. Num instante estamos distraídos com os detalhes — o trânsito, o cansaço, as pequenas irritações — e no outro somos confrontadas com aquilo que realmente pesa: a saúde e a falta dela, o medo que se instala devagar, a ansiedade que aperta, o território incerto onde de repente tudo deixa de ser garantido.

E então percebemos.
Que muito do que nos ocupa às vezes não passa disso mesmo: detalhes.

Gosto verdadeiramente da menina M., como carinhosamente a chamo cá em casa. Há nela uma força tranquila, uma coragem que não precisa de palco, e ao mesmo tempo uma ternura rara. É daquelas pessoas que nos desarmam sem esforço, que nos oferecem paz só por estarem.

Já passou por tanto — mais do que aquilo que se vê à superfície — e, ainda assim, não é feita de queixas nem de lamúrias. Há uma dignidade silenciosa na forma como caminha pela vida. E talvez seja isso que mais me comove.

A menina M. é feita de luz.
Da luz que carrega, mesmo quando tudo à volta escurece.
E da luz que dá — assim, generosamente — em forma de esperança.

Uma esperança profunda, serena, quase inexplicável. Daquelas que só nascem em quem tem uma fé enraizada, não necessariamente dita, mas vivida.

Saí daquele café diferente. Mais leve, mas também mais consciente.

Como se, por um instante, tivesse sido lembrada — com doçura e verdade — de que a vida é frágil, sim… mas também profundamente bela quando encontramos pessoas que, mesmo no meio da incerteza, escolhem continuar a iluminar o caminho dos outros.

Obrigada querida M. 

Por tanto

PB

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