O que a minha secretária diz sobre o estado da minha alma

Antes de começar a dar explicações, arrumo sempre a minha secretária. No início do dia e entre a saída de um grupo e a entrada de outro.

Mas quando digo “arrumo”, não estou a falar de empurrar duas folhas para o lado com um ar resolvido e declarar que está tudo sob controlo. Não. Falo de um arrumar sério, meticuloso, quase cerimonial. Os livros no lugar certo, as fichas separadas por anos, as canetas alinhadas, a mesa limpa, a superfície respirável. Só depois consigo começar. Só depois sinto que o cérebro compareceu.

Há pessoas que funcionam bem no caos. Eu vivo com uma delas.

O meu marido é dessas criaturas que conseguem trabalhar rodeadas por papéis em camadas geológicas, livros abertos em várias direções, apontamentos misteriosos, objetos sem explicação aparente e uma certa estética de “isto parece caótico, mas eu sei exatamente onde está tudo”. Às vezes, sabe mesmo, outras nem tanto...

As nossas mesas são o retrato perfeito de duas maneiras opostas de existir. A minha parece dizer: serenidade, método, clareza, estrutura. A dele parece murmurar: improviso, movimento, ousadia e desordem criativa.

Às vezes olho para a sala dele e sinto-me como um arqueólogo prestes a descobrir vestígios de civilizações antigas. Outras vezes, ele olha para a minha e talvez pense que vive com alguém capaz de medir a distância entre dois lápis para garantir simetria emocional.

E, no entanto, cá estamos. Talvez os opostos se atraiam, afinal. Ou talvez um precise, secretamente, do espanto que o outro provoca.

Eu não funciono sem ordem. Preciso que a mesa esteja arrumada para que a cabeça também esteja. Preciso de sentir que há um princípio claro, um espaço preparado, uma espécie de pacto silencioso entre mim e o trabalho que vou começar. Arrumar a secretária é a minha maneira de dizer: agora estou aqui. Agora posso concentrar-me. Agora vamos a isto com dignidade.

A mesa, no meu caso, não é apenas uma mesa. É quase um estado de alma. Se está limpa, clara, organizada, eu respiro melhor. Penso melhor. Até explico melhor. Não sei se isto tem nome científico, traço de personalidade, necessidade de controlo ou simples amor pelas superfícies desimpedidas. Sei apenas que me faz bem.

E depois há qualquer coisa de profundamente reconfortante em separar fichas por anos, alinhar livros e deixar tudo pronto. Enquanto o mundo lá fora insiste em ser barulhento, apressado e um pouco excessivo, eu vou construindo a minha pequena república da ordem.

O meu marido, por seu lado, constrói a sua monarquia do caos. :)

E talvez o segredo do nosso casamento esteja mesmo aí: em aceitar que há quem precise de espaço livre para pensar e quem pense melhor no meio de um cenário que, aos olhos do outro, justificaria uma intervenção urgente.

No fundo, as nossas mesas dizem muito sobre nós. A minha pede silêncio, foco e margens limpas. A dele diz que a vida está em curso e não há tempo a perder com detalhes. A minha quer paz. A dele quer tração.

Se os opostos se atraem, cá em casa isso confirma-se todos os dias: eu alinho canetas, ele empilha papéis; eu separo fichas por anos, ele confia heroicamente que vai encontrar o livro desaparecido; eu preciso de espaço livre para pensar, ele parece pensar melhor no meio de uma pequena tempestade doméstica. E, no entanto, talvez seja justamente aí que mora o nosso segredo: não somos parecidos, mas completamo-nos e aprendemos a reconhecer, com humor e ternura, a lógica do mundo do outro.

PB

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