O peso invisível das expectativas
Passamos grande parte da vida a construir expectativas. Colocamo-las sobre nós próprios como quem constrói uma escada invisível: degrau após degrau, acreditando que, se subirmos o suficiente, alcançaremos aquilo que imaginámos ser a nossa melhor versão.
Mas não ficamos por aí. Também colocamos expectativas nos outros.
Esperamos gestos.
Esperamos palavras.
Esperamos presença.
Esperamos reciprocidade.
Esperamos que os outros nos compreendam sem explicações longas. Que adivinhem as nossas necessidades. Que respondam ao amor e à amizade com a mesma intensidade com que o sentimos. E é curioso como raramente paramos para fazer uma pergunta simples:
Que direito temos nós de esperar isso?
Talvez nenhum.
Porque cada pessoa vive dentro de uma geografia interior que nunca conheceremos completamente. Cada um carrega as suas histórias, as suas feridas, as suas limitações, as suas ausências. Há quem tenha dentro de si oceanos de generosidade. Há quem tenha apenas pequenas poças de água, suficientes para sobreviver mas não para partilhar.
Não é necessariamente egoísmo. Às vezes é apenas escassez.
Bauman dizia que vivemos num tempo líquido, onde os vínculos são frágeis e as promessas parecem sempre provisórias. Esperamos solidez num mundo que muitas vezes se organiza na impermanência. Mas talvez o erro não esteja apenas no mundo. Talvez esteja também em nós, quando esperamos dos outros aquilo que, no fundo, nasce das nossas próprias necessidades. Projetamos neles a versão de amor, de amizade ou de cuidado que existe dentro de nós.
Esquecemo-nos de que ninguém pode dar aquilo que não tem.
Há pessoas que amam com intensidade.
Outras amam com cautela.
Algumas amam com silêncio.
Outras simplesmente não sabem amar melhor do que aquilo que conseguem.
E exigir mais do que isso talvez seja, no fundo, uma forma de violência subtil. Porque cada pessoa só oferece aquilo que a sua história lhe ensinou a oferecer.
Afonso Cruz escreve muitas vezes sobre esta estranha condição humana: somos seres profundamente imperfeitos que tentam, com ferramentas incompletas, construir relações completas.
Talvez seja por isso que tantas vezes nos magoamos. Confundimos expectativa com promessa. Mas o amor, a amizade, a presença verdadeira — essas coisas não crescem bem sob exigência. Crescem melhor na liberdade.
E quando deixamos de exigir que os outros correspondam exatamente ao que imaginámos, algo curioso acontece e começamos a vê-los como realmente são.
E isso pode ser libertador.
Porque a verdade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar: cada pessoa só dá aquilo que tem dentro de si.
Alguns dão muito.
Outros dão pouco.
Alguns dão tarde.
Outros nunca aprendem a dar.
E talvez a maturidade emocional comece precisamente aqui: no momento em que percebemos que não podemos controlar o que os outros oferecem. Podemos apenas decidir o que fazemos com aquilo que recebemos.
Talvez a verdadeira liberdade esteja em amar sem contabilidade. Em oferecer sem transformar cada gesto numa dívida. Em aceitar que a generosidade dos outros não tem obrigação de coincidir com a nossa.
Porque, no fim, cada pessoa é apenas um pequeno território de possibilidades. E ninguém pode prometer aquilo que nunca aprendeu a ser.
Talvez por isso a pergunta mais honesta não seja: O que espero dos outros?
Mas antes: O que é que esta pessoa é realmente capaz de dar de si aos outros?
E depois decidir, com serenidade, se isso é suficiente para nós.
Porque a liberdade começa quando deixamos de tentar moldar os outros à forma das nossas expectativas e passamos simplesmente a aceitar a forma que cada um tem, mesmo quando essa forma não coincide com aquilo que desejávamos. Não posso, no entanto, deixar de sentir pena profunda pela incapacidade que algumas pessoas têm de se dar, de dizer "gosto de ti", de não serem capazes de colocar a amizade acima de outros interesses, de ficarem constrangidas quando são abraçadas por alguém. Tenho pena, mas tenho feito um esforço para compreender e dar espaço, porque talvez seja aí — nesse espaço silencioso entre dar e esperar — que começa a forma mais rara, honesta e bonita de amizade.
PB
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