O mistério de existir

Há dias em que penso numa coisa curiosa. Passamos grande parte da vida a tentar compreender o mundo. Queremos explicar tudo, dar nome às coisas e organizar os sentimentos em frases claras. Mas a verdade é que viver raramente é assim tão organizado.

Há pensamentos que aparecem sem aviso.
Memórias que regressam de repente.
Sensações difíceis de explicar, como uma nostalgia leve por algo que nunca chegou realmente a acontecer.

Às vezes estou apenas a caminhar na rua, a ouvir uma música, ou a olhar pela janela — e, de repente, sinto de forma muito nítida o simples facto de estar viva e a força que isso impõe.

É um instante estranho e bonito ao mesmo tempo. Como se, por um momento, a vida se revelasse sem grandes explicações.

Durante muito tempo achei que era preciso perceber tudo.

Que as emoções tinham de ter uma razão clara.
Que as decisões tinham de fazer sentido.
Que os caminhos tinham de estar bem definidos.

Com o tempo fui percebendo outra coisa. Há partes da vida que não existem para serem resolvidas. Existem apenas para serem sentidas.

Nem sempre sabemos exatamente quem somos em cada fase da vida.
Nem sempre sabemos explicar aquilo que nos inquieta.
Nem sempre conseguimos traduzir em palavras o que se passa dentro de nós.

E talvez esteja tudo bem com isso.

Talvez existir seja, em grande parte, habitar esse território meio misterioso entre aquilo que entendemos e aquilo que apenas pressentimos.

Porque há mudanças silenciosas que acontecem dentro de nós sem que a gente dê conta, e se olharmos para trás percebemos que não somos a mesma pessoa que éramos há dez anos, que as coisas que nos preocupavam já não existem, que os sonhos que tínhamos deram lugar a outras certezas e que até a forma como olhávamos para o mundo vai sendo transformada devagar, sem que muitas vezes tenhamos disso consciência.

É uma espécie de metamorfose tranquila e quase invisível. E talvez seja essa transformação constante que torna a vida tão difícil de definir.

Vivemos numa época que gosta muito de respostas rápidas: Queremos saber quem somos. Para onde vamos. Qual o significado de tudo isto.

Mas talvez a vida não peça respostas tão definitivas e muito menos rápidas, talvez a vida peça apenas mais calma, entrega e atenção. Atenção aos pequenos instantes, às perguntas que ainda não sabemos responder e à forma como vamos mudando sem dar por isso.

Talvez o segredo não seja compreender completamente a vida, mas vivê-la com mais presença, aceitando, com alguma serenidade, que dentro de nós existem coisas que são maiores do que qualquer explicação. Coisas que apenas se sentem e não se explicam mas que, no fundo, fazem parte do mistério bonito de existir.

PB ✨

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