O meu ano começa quando a vida recomeça

Ao contrário de muitas pessoas, o meu ano não começa em janeiro. Janeiro, para mim, é continuidade. É apenas a página seguinte de um livro que já vinha a ser escrito. Não há rutura, não há verdadeiro recomeço — há apenas um prolongamento do que já estava em curso. Nunca senti em janeiro esse impulso de começar de novo. Talvez porque o inverno ainda é tempo de recolhimento, de interior, de pausa. Um tempo necessário, mas não inaugural. O meu ano começa mais tarde. Começa quando a luz muda. Começa quando o frio deixa de ser dominante e a terra, silenciosamente, começa a preparar-se para renascer. Começa na primavera a sua preparação e acentua-se na Páscoa. É a Páscoa que marca, para mim, o verdadeiro início. Há qualquer coisa de profundamente simbólico — e talvez profundamente humano — nessa ideia de renascimento. Tal como a ressurreição nos fala de um tempo novo, também a Páscoa, na minha vida, é esse ponto de viragem invisível onde tudo recomeça, mesmo que nada, à primeira vista, tenha mudado. É nessa altura que planto. Planto flores, mas também planto ideias. Planto intenções. Planto projetos. Planto sonhos que ainda não têm forma, mas já têm direção. Há uma espécie de alinhamento silencioso que acontece nesse tempo. Como se, de repente, tudo dentro de mim se organizasse de novo. Não por obrigação, não por calendário — mas por sintonia com qualquer coisa maior, mais antiga, mais intuitiva. Defino. Revejo. Escolho. E começo. Depois vem o tempo de cuidar. De regar. De insistir. Em junho, no final do ano letivo, há uma pausa diferente. Não é um fim — é um ponto de observação. Olho para trás, faço balanços, meço não apenas o que consegui, mas também o que aprendi. Nem tudo cresce ao mesmo ritmo. Nem tudo floresce no tempo que esperamos. Mas tudo deixa marca. E isso, aprendi, também conta. Continuo a regar. Continuo a ajustar. Continuo a alinhar aquilo que começou meses antes, naquele primeiro impulso de primavera. Depois chega o verão. E o verão, para mim, é outra coisa. É um tempo mais inteiro, mais dedicado, mais voltado para dentro daquilo que realmente importa. A família ganha espaço, presença, prioridade. Há uma desaceleração necessária, quase instintiva, como se a vida soubesse que também precisa de pausa para continuar. Mas este ano será diferente. Há mudanças que ainda não posso contar ... Há histórias que precisam de tempo antes de serem ditas. E segredos para mais tarde revelar ... Depois chega o outono. E é aí, no final de setembro, início de outubro, que recolho o que plantei na primavera. É a época da abundância, a época de extrair do meu trabalho aquilo que ganhou forma depois de meses de cuidado invisível. Setembro é também o tempo dos reencontros. Dos alunos que regressam. Das rotinas que se reconstroem. Das saudades que se transformam em presença. É o regresso aos pequenos-almoços com as amigas, interrompidos pelo verão e retomados com aquela sensação boa de continuidade. É um tempo cheio. Cheio de movimento. Cheio de vida. Cheio de tudo aquilo que, meses antes, era apenas intenção. E talvez seja isso que mais me faz sentido: não viver o tempo como uma linha. Mas como um ciclo alinhado com a Natureza. Como um movimento contínuo de começar, cuidar, esperar e recolher. Talvez seja uma herança invisível — uma memória antiga que não sei explicar, mas reconheço. Como se, algures, soubesse que há um tempo certo para cada coisa. E que não vale a pena forçar o que ainda não está pronto. O meu ano não começa em janeiro. Começa quando a vida começa de novo. E esse começo, para mim, tem uma luz diferente. Tem cheiro a terra. Tem promessas e tem recompensas. Tem a sabedoria das estações que, como o meu avô Miguel me ensinou, sabem sempre a altura certa para cada coisa. E tem aquela certeza tranquila de que tudo o que precisa de nascer… nascerá. PB (continua na próxima estação...)

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