O domingo do domingo
Deitei-me às 5h30 da manhã. Não foi festa, não foi insónia existencial — foi tese. Aquela relação intensa, exigente e um bocadinho tóxica que nos faz prometer “só mais um parágrafo” até o relógio deixar de fazer sentido.
Acordei (ou algo parecido com isso) com a elegante sensação de quem foi atropelada por um comboio académico. E foi aí que tive uma epifania: já não tenho idade para diretas. Tenho responsabilidades. Muitas. Demasiadas? Talvez. Negociáveis? Nem por isso.
Porque entretanto sou mãe, filha, esposa, professora, explicadora de matemática, orientadora de alunos… e, aparentemente, também atleta de resistência numa maratona de 7 dias por semana, das 8h até à madrugada. Sem medalha no fim, só cafés e listas de tarefas que se reproduzem sozinhas.
Hoje, o cérebro pede pausa, mas a vida responde com: fichas para corrigir, turmas para orientar, equações para explicar, alunos para motivar. E eu ali, a sonhar com um domingo… só um domingo dentro do domingo. Um espaço-tempo secreto onde eu pudesse existir sem prazos, sem notificações e, quem sabe, até sentar-me no sofá. Imaginem isso. Sentar. No sofá. Sem culpa. Sem portátil. Sem “só mais isto”.
A verdade é que, no meio deste caos organizado, há uma espécie de orgulho silencioso. Cansado, sim. Meio desalinhado, também. Mas firme. Porque cada papel que desempenho vem de um lugar de compromisso — com os outros, mas também com aquilo que quero construir.
Ainda assim, fica aqui registado: se alguém descobrir onde se compram domingos extra, avisem-me. Pago em prestações, com juros emocionais, mas pago.
Agora vou ali tentar sobreviver ao dia. Com olheiras, café e a dignidade possível.
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