Férias

Nestes dias de férias da Páscoa, tenho sentido a vida a abrandar para o ritmo certo. Um ritmo mais humano, mais inteiro, mais nosso. Ter os meus filhos comigo enche-me de uma felicidade profunda, daquelas que não fazem barulho, mas iluminam tudo. Basta vê-los pela casa, ouvir as suas vozes, partilhar os pequenos gestos do dia, para sentir que há uma espécie de milagre discreto nas coisas simples. Há uma alegria feita de presenças, de vozes pela casa, de passos conhecidos, de silêncios que não pesam. Há uma paz difícil de explicar quando os nossos estão perto.

E, como se isso já não bastasse para me aquecer o coração, temos também a Mada connosco nestes dias. A minha querida ex-aluna, que a vida foi deixando ficar por perto de um modo tão bonito. Gosto muito de a ter na Academia. A Mada gosta do sossego, da calma e do bom ambiente que ali se vive, desse silêncio habitado que ajuda a estudar e a respirar melhor. Vai preparando os seus exames da faculdade, concentrada, serena, feliz no seu canto. E eu adoro vê-la ali.

Há qualquer coisa de muito bonita em estarmos todos juntos, cada um entregue às suas coisas, aos seus livros, aos seus pensamentos, aos seus trabalhos, e ainda assim tão acompanhados. Estudamos lado a lado, em mundos diferentes, mas na mesma mesa invisível do afeto. Há qualquer coisa de muito bonita nisto: estarmos próximos sem precisarmos de muitas palavras, partilhando o mesmo tempo, a mesma mesa e a vontade de saber. Depois há sempre o momento do café, que nunca é só café: é pausa, conversa, histórias partilhadas, risos, memórias, pequenos desabafos e aquela sensação boa de pertença.

Lá fora, os dias têm sido de um sol bom, generoso, quase reparador. A primavera já se instalou e sente-se isso no corpo e no humor, na forma como as pessoas sorriem mais, trabalham melhor, parecem mais disponíveis para a vida. Há qualquer coisa nesta estação que nos devolve a esperança em versão simples: uma árvore em flor, uma janela aberta, uma vontade maior de arrumar, cuidar, preparar.

Eu gosto muito destes dias assim. Dias de paz. Dias em que a Páscoa se aproxima devagar e me sabe bem pensar com antecedência na ementa, escolher as flores, os pequenos detalhes da decoração, os doces, os chocolates e as amêndoas favoritas de cada um. Gosto de compor a ementa com os sabores da minha Beira Baixa, como quem traz a memória para a mesa e a serve em travessas de afeto. Há amor nestes preparativos. Há cuidado. Há uma ternura silenciosa em preparar a casa para receber os nossos.

E eu penso que talvez a vida, quando é verdadeiramente boa, tenha sempre esta forma simples, mas genuína: uma casa com luz, uma mesa com memória e um coração sem pressa.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Querida C.

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito

Boas notas, más notas (ou como tirar 80% e ainda levar sermão)