Não se nasce mulher, torna-se mulher

Há frases que chegam à nossa vida como quem deixa uma pedra dentro de um lago. No instante em que as lemos, quase nada parece acontecer. A água permanece lisa, intacta, como se nada tivesse tocado a sua superfície. Mas depois, lentamente, formam-se círculos. E esses círculos continuam a abrir-se dentro de nós durante anos.

Há frases assim. Frases que vivem em silêncio. Que não fazem ruído, mas ficam. Trabalham devagar no interior da consciência, como uma semente que germina no escuro.

Às vezes lemo-las cedo demais, numa idade em que ainda não temos as perguntas certas para compreender aquilo que elas realmente dizem. E, no entanto, alguma coisa nelas permanece connosco como uma espécie de claridade adiada.

Uma dessas frases pertence a Simone de Beauvoir e escutei-a muito nova:

“Não se nasce mulher, torna-se mulher.”

Durante muito tempo li esta frase como quem contempla um enigma filosófico. Parecia-me uma provocação inteligente, uma dessas ideias que existem para inquietar o pensamento. Hoje percebo que ela fala de algo mais simples — e, justamente por isso, mais fundo.

Ser mulher não é apenas uma condição biológica. É também uma construção, uma aprendizagem, uma narrativa que começa antes de nós. Uma história que já estava em andamento quando chegámos ao mundo e que nos recebe com papéis distribuídos, expectativas subtis e definições silenciosas sobre aquilo que devemos ser.

Aprendemos isso cedo. Aprendemos como nos devemos comportar, como devemos ocupar o espaço à nossa volta, o que nos deve ser permitido desejar e até onde parece legítimo ambicionar chegar.

Muitas dessas aprendizagens não chegam sob a forma de imposição clara. Não são decretos. São gestos aprentemente inofensivos, pequenas frases repetidas sem malícia aparente, pequenas regras invisíveis que organizam o quotidiano e acabam por organizar também a nossa maneira de existir dentro dele.

É assim que o mundo, discretamente, se instala em nós. Mas se nos tornamos mulheres através daquilo que nos é ensinado, então também podemos interrogar essas aprendizagens. Podemos olhar para elas de frente, desmontá-las, recusá-las, transformá-las e até recusá-las. Podemos rearrumar a herança recebida e abrir espaço para outra interpretação de nós mesmas.

Talvez seja por isso que a frase de Simone de Beauvoir continua tão viva em mim. Porque não fala apenas de género, fala-me de liberdade, fala-me da possibilidade de não aceitarmos a nossa identidade como um destino fechado, mas como uma obra em curso. Tornar-se mulher não é cumprir um guião previamente escrito, é participar, com lucidez e coragem, na construção de quem somos. É escolher, dentro das margens que a vida nos dá, a forma singular da nossa presença no mundo.

Ao longo do tempo, as mulheres foram conquistando lugares que durante séculos lhes pareceram interditos.

Espaços de pensamento.
Espaços de trabalho.
Espaços de criação.
Espaços de decisão.

Mas talvez a transformação mais radical não tenha acontecido apenas no exterior. Talvez tenha acontecido dentro de cada uma, nesse lugar íntimo onde nasce a consciência de que a identidade não é fixa, não é imóvel, não é uma sentença. É um processo em movimento. Um caminho que se constrói todos os dias entre aquilo que o mundo espera de nós e aquilo que, apesar do mundo, nós escolhemos ser.

E talvez seja essa a herança mais poderosa desta frase que me acompanha desde a infância. Não apenas uma reflexão sobre as mulheres, mas uma pergunta maior, mais profunda e mais humana — uma pergunta que continua a atravessar gerações como um eco necessário:

Ao longo da vida, quem escolhemos tornar-nos?

PB ✨

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